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Alegrete em Fatos - Prof. Danilo Assumpção
Santos (Diretor do CEPAL - Centro de Pesquisa e Documentação
de Alegrete), edição lançada em jan/2007, promovida
pela Prefeitura Municipal de Alegrete.
CEPAL: cepal@gmail.com / tel (55) 3422 4585
No
momento em que somos interpelados sobre o fundador da Cidade de Alegrete,
fica um pouco difícil acertar um nome que possa ser o grande pai
da comunidade alegretense.
No fluxo e refluxo das fronteiras, nas brigas das Coroas européias,
nas contendas dos exércitos, nas sesmarias doadas, nos trabalhos
da Igreja e no simples Povoado dos Aparecidos podemos notabilizar quatro
grandes nomes que perfeitamente cumpriram com suas obrigações
políticas e sociais. A estes homens pode ser atribuída uma
parcela de paternidade desse imenso município.
O fundador da atual cidade de Alegrete é motivo de muita controvérsia,
pois as opiniões variam, devido aos diversos momentos ou ângulos
sobre os quais são enfocados os acontecimentos.
1)
O Marechal José de Abreu, Barão do Cerro Largo,
segundo o Professor Saul de Palma Souto "foi o protetor e organizador
da nova povoação, em sua qualidade de Comandante Militar"
do Distrito de Entre Rios. Segundo Luiz Araújo Filho, "o General
Abreu, exercendo o cargo de Comandante do distrito de Entre Rios, tinha
já estabelecido aqui o seu acampamento, que veio a ser com o restante
da Capela Queimada, o núcleo da "futurosa vila", depois
cidade, oriunda assim de uma estação militar, como muitas
outras do nosso Estado.
2)
Dom Luiz Telles da Silva Caminha e Meneses, 5° Marquês de Alegrete,
segundo o Professor Saul Palma Souto "foi o fundador legal de Alegrete,
que dele tomou o nome, por que, por sua autoridade, "a nova povoação"
foi estabelecida e legalmente reconhecida, em sua qualidade de representante
do Monarca Luso-Brasileiro". O Marquês chega ao acampamento
do Brigadeiro Thomas da Casta Correa Rabelo e Silva a 20 de dezembro de
1816. Os habitantes da Capela Queimada, através de um requerimento,
solicitam-lhe que lhes transferisse o Povoado de Aparecidos para o Guassu-Passo,
às margens do Ibirapuitã. O Marquês solicitou o pronunciamento
do Comandante do Distrito de Entre Rios, General Abreu, e despachou favoravelmente
a petição a 25 de fevereiro de 1817. Segundo o historiador
Leandro Telles, "salvo melhor juízo da parte dos senhores
historiadores, não vejo por que um simples despacho seja capaz
de conferir ao Marquês o título de Fundador de Alegrete.
Assenta-lhe melhor o título de protetor, como o denomina Luís
Araújo Filho".
3)
Sesmeiro Antônio José de Vargas, segundo o Professor
Saul de Palma Souto "Antônio José de Vargas foi o doador
das terras onde está a cidade de Alegrete, porque tinha o senhorio
das terras, na qualidade de sesmeiro".
Segundo o historiador Leandro Telles "é a Abreu que o Marquês
ordena que informe quanto à petição dos "alegretenses",
após ouvir o proprietário do terreno, por escrito, Antônio
José de Vargas". Segundo o Padre José Paim Coelho de
Souza, Pároco da Capela de Alegrete "a povoação
de Nossa Senhora da Conceição Aparecida foi iniciada no
ano de 1814, edificada primeiramente "em o lado ocidental do Ñanduhy
e pela invasão dos insurgentes em Setembro de 1816, que reduziram
a cinzas toda a nova povoação, foi em 1817, novamente edificada
na margem esquerda do Ibirapuitan, aonde hoje existe em terras de Antônio
José de Vargas, na forma do foro das sesmarias".
4)
O Padre José Paim Coelho de Souza - Atribui-se ao Padre
José Paim Coelho de Souza a organização e a supervisão
do nascente povoado de Alegrete. De 27-Fev-1822 até 16-Abr-1829,
quando veio a falecer. Atribui-se ao Referido Padre esta designação
por ser ele o primeiro Pároco nomeado, que realmente encaminhou
a real organização do Povoado. Existem ainda, anteriormente,
em 1816, o Capelão do Exército, Padre Jose de Freitas (26-Dez-1816),
o Cura Francisco de Paula Teixeira (08-Jun-1817 a 30-Set-1820) e o Cura
Manoel Fernandes de Alemeida (21-Nov-1819 a 21-Abr-1822).
Durante sete anos O Padre José Paim conseguiu dar o verdadeiro
perfil de organização religiosa e social à nascente
povoação.
5)
Os habitantes, índios missioneiros: segundo a Revista
do Instituto Histórico Brasileiro, 1868, volume 31, há o
seguinte relato do incidente: "O General Thomaz da Costa, percebendo
as intenções de Artigas, destacou, para as Missões,
o Tenente-Coronel Abreu e retirou-se para o acampamento do General Curado,
Acampamento de São Diogo, na forqueta do Rio Ibirapuitã,
acompanhado dos habitantes da Capela Queimada". Na opinião
de Leandro Telles "creio estar bem claro que Abreu só veio
ter ao acampamento de Curado e Thomaz da Costa após os habitantes
do primitivo núcleo habitacional estarem ali estabelecidos, pois,
na ocasião, andava combatendo as forças do Coronel José
Antônio Verdun e visando impedir a todo transe a junção
das forças de Sotelo com Andresito. Os verdadeiros fundadores ou
criadores de Alegrete são, segundo Leandro Telles, "aqueles
obscuros índios missioneiros que merecem o título de fundadores
de Alegrete".
6)
Doadores das terras de Alegrete: Segundo a "Sentença
Civil de Medição e Demarcação da Meia Légua
Quadrada Pertencente a esta Vila, passada a favor da Câmara Municipal",
documento datado de 05 de novembro de 1850, frente ao Juiz Municipal Joaquim
dos Santos Prado Lima, existem as seguintes partes: 1ªparte - autora
a Câmara Municipal; 2ª parte - como herdeiros Antônio
José de Vargas e sua mulher Silvéria Maria da Conceição
Moreira. Na assinatura do documento, assinou por Antônio
José de Vargas "por não saber escrever, a seu rogo,
assinou o cidadão Antônio Luiz Ferraz". O processo de
medição e demarcação aconteceu de 05 de novembro
de 1850 a 04 de dezembro de 1850. Este documento foi transcrito pelo Professor
Danilo Assumpção Santos e se encontra no Centro de Pesquisa
e Documentação de Alegrete - CEPAL. Com este documento,
passado em favor da Câmara Municipal de Alegrete, realmente há
um doador das terras. Foram terras, localizadas no atual perímetro
urbano, tendo como limites atuais: ao Norte a Rua Presidente Roosevelt
e Rua Joaquim Nabuco; Leste a Rua Joaquim Antônio; ao Sul a Avenida
20 de Setembro e a Oeste a Avenida Dr. Lauro Dornelles e também
terras fora do perímetro urbano, as quais perfazem meia légua
quadrada.
7)
O Mapa da Villa de Alegrete: Ainda no período de Vila,
o Presidente da Câmara de Vereadores, Dr. José Velloso de
Souto designa o "geômetra belga", Henrique Devreker, para
fazer a medição das quadras e determinação
dos alinhamentos necessários. A planta da vila foi entregue a 10
de abril de 1855. Conforme a cópia do original foram encontrados:
42 quadras, 768 terrenos, 329 proprietários, 439 terrenos devolutos,
275 casas e 01 sobrado. Como já se concluíra a "Sentença
Civil de Medição e Demarcação da Meia Légua
Quadrada", a 4 de dezembro de 1850, o foi necessário fazer
a medição, para organizar as doações de terrenos
e cobrança de impostas.
O Mapa da Vila é um atestado verdadeiro de que as 42 quadras situavam-se
sobre as terras de Antônio José de Vargas, lindeiro de Agostinho
Dornelles de Souza.
Cf. SOUTO, Dom Saul de Palma, Livro de Batismos da Capella Curada de Nossa
Senhora Aparecida de Alegrete, Volume 01, (1816/1826) Registro 11, observação
03, página 44. Centro de Pesquisa e Documentação
de Alegrete - CEPAL, obra transcrita pelo Professor Danilo Assumpção
Santos, 1996.
Cf.
TELLES, Leandro, Correio do Povo, Porto Alegre, 12 de março de
1970.
Cf. ARAÚJO FILHO, Luís, O Município de Alegrete,
Editora o Coqueiro, Alegrete, 1907.
Cf. Planta da Villa de Alegrete, de Henrique Devreker, 10 de Abril de
1855, Arquivo do Centro de Pesquisa e Documentação de Alegrete
- CEPAL
Os
Habitantes da Terra
12 mil anos atrás
Os
Guaranis
Pertencem ao grupo do Tape, dominando a região noroeste e central
do Rio Grande do Sul. Viviam em aldeias, em casas dispostas em círculo.
Praticavam a caça e a pesca, desenvolvendo rudimentos de agricultura.
A religião encontrava-se de tal maneira estruturada que o contato
com os jesuítas espanhóis foi facilitado pela similaridade
de suas concepções. Desta maneira a catequese foi rápida.
Os padres, ao criarem as reduções, na margem esquerda do
Rio Uruguai, protegeram os índios contra a escravidão cometida
pelos bandeirantes portugueses e os adelantados espanhóis.
A língua falada nas reduções era o Guarani. Outro
fator que veio a concorrer para o sucesso das reduções foi
o Ivy-Maray que, na concepção indígena, era o paraíso
na terra. Os jesuítas simbolizaram as reduções como
esse paraíso, motivo pelo qual progrediu de maneira ímpar
tal império teocrático. A obra jesuítica no Rio Grande
deu-se em duas fases:
1ª Fase – 1626-1638 – fundadas 18 reduções,
logo atacadas pelos bandeirantes paulistas.
2ª Fase – 1682-1801 – fundados os Sete
Povos, permanecendo até 1801 em poder dos espanhóis. Após
passou ao domínio português.
Os
guaranis históricos desapareceram lentamente do Rio Grande pelo
ataque dos bandeirantes, pela Guerra Guaranítica, pela escravidão
imposta pelo Governo Militar nas reduções, depois da expulsão
dos Jesuítas, pelo recrutamento militar e pela mestiçagem
das mulheres com os homens brancos.
Nas atividades da pecuária, o índio deixou rastros impagáveis,
principalmente na região missioneira, onde a mestiçagem
denuncia, não apenas nos traços físicos de muitos
de seus habitantes, senão nas técnicas aplicadas aos costumes,
ao pastoreio e à agricultura.
Só em 1801, após implacável retrocesso, já
quase reintegrados na barbárie, ocasionada pelo descaso das autoridades
leigas que sucederam os jesuítas nos Sete Povos, os guaranis começaram
a ser incorporados ao mundo de fala portuguesa.
Os
Charruas
Habitavam a região sul do território rio-grandense. Eram
indomáveis, altivos e orgulhosos. Não se submeteram à
catequese dos jesuítas e guerrearam sempre os colonizadores, com
pertinácia e bravura. Preferiam a morte à submissão.
A cultura material charrua contribuiu enormemente para criar o tipo clássico
do gaúcho primitivo. Não cultivavam a terra. Assavam a carne
em brasas, espetada num pedaço de pau. Observavam o inimigo por
meio de bombeiros ou espias. Faziam sistema com o cavalo, colocando-se
no flanco esquerdo do animal, de modo que não fossem percebidos
de longe. Cavalgavam em pêlo e raramente usavam freio para dirigir
o cavalo. Suas armas preferidas eram a flecha e a funda. Não conheciam
as boleadeiras.
Eram nômades e se alimentavam da caça. Com a introdução
do gado vacum, a carne passou a ser a alimentação predileta.
Apreciavam muito o fumo e o álcool.
Embora fossem praticamente indomáveis, quando foram se generalizando
as estâncias nas regiões onde eles habitavam, agregaram-se
espontaneamente, aos poucos, a esses centros de atividades, atraídos
talvez pelos minuanos, que mantinham relações amigáveis
com os colonizadores ou pelas lides campeiras que os seduziam.
Os
Minuanos
Habitavam o sudeste do território rio-grandense. Neste lugar, viviam
em contínuas mudanças, carregando as suas habitações
portáteis. Sendo como os charruas, tinham os mesmos hábitos
e caracteres físicos dos quais foram aliados constantes, especialmente
na luta contra outros indígenas. Eram mais sociáveis e menos
orgulhosos que os charruas.
Com a sua língua primitiva, aconteceu o mesmo que ocorreu com a
dos charruas, trocaram-na pelo Guarani, depois da invasão “civilizadora”.
Salientavam-se pela altivez, daí a dificuldade e a repugnância
com que se integravam na civilização dos invasores.
Tinham predileção pela lida campeira, sendo este o motivo
que os levou a se agregarem às estâncias. Sobrepujaram o
negro em qualidades morais, não aceitando o servilismo com resignação.
Os índios minuanos, em meados do século XVIII, prestaram
serviços a Portugal, pois os colonos portugueses tratavam e comerciavam
em paz, fazendo-os amigos.
Usavam ponchos de couro e o xiripá de algodão. Alimentavam-se
de churrasco e chimarrão. As suas armas eram o arco, a flecha,
as boleadeiras e o laço. A faca flamenga, com bainha de couro cru,
traziam-na sempre entalada entre a tanga de algodão e a cintura
pela parte das costas.
O
Condimento do Gaúcho
1626 O
gaúcho é um produto das contingências do meio, de
um somatório de condimentos como o pampa, a conquista e o gado.
No alvorecer do século XVII e durante o XVIII, pela conjunção
de fatores locais e pela política mercantilista européia,
armou-se um palco de situações que, pelo desenrolar histórico
que carregavam as causas, vieram fortalecer um acomodar de forças
de tal sorte que as raças e as populações, ao se
enfrentarem, produziram um tipo estranho, marginal e andante.
A imensidão do pampa, que cobria parte do Rio Grande do Sul, do
Uruguai e da Argentina apresentou campos da mais pura excelência
onde os jesuítas já houveram descoberto sua qualidade, povoando
de uma riqueza semovente. Tanto no verão, como no inverno era um
privilégio desfrutar esses campos, portentoso arraial de vida e
um belo palco para lutas e correrias.
O elemento indígena, de cor avermelhada, púrpura
desmaiada pelo sol, deixou uma intrepidez, somada com a bravura que soube,
com seus guinchos guerreiros céleres, espantar e atrair quem os
dominou definitivamente. É uma história de bravuras, de
dantescas sangrias que tingiram os conquistadores com um débito
mais maldito do que cristão.
O elemento branco, com a pele clara, como luar argentum,
trazia em suas conquistas uma cobiça desmedida, uma imperdoável
ambição de capitalizar bens a qualquer preço, mesmo
à custa de dizimação e de sacrifícios inauditos.
Apesar das misérias e agonias, plantou em toda a América
uma extensão da Europa que sempre se ungiu como perfeita e ideal.
O elemento negro, com sua pela escura, olhos brancos e mansos, dentes
perolados tem apenas como aliada a força, absorvida pela brutalidade
dos trabalhos, entretanto, temperada pela maciez do espírito.
Deste
embate de etnias, deste somatório de temperamentos, desta soma
de ambições eclode um tipo estranho que acabará de
compor, junto com o primitivismo da paisagem, uma combinação
eficaz e vigorosa pela eternidade dos séculos.
Do homem andarilho que se apresentava, sem moradias fixas ou familiares,
foi surgindo uma característica de tristeza solitária, inabilidade
para os refinamentos do amor, e temor aos segredos religiosos. Todavia
ao se deparar com a imensidão do pampa, reter entre suas pernas
o fogoso cavalo, e manejar o gado sonoro e choroso, sente-se preso aos
ditames da terra, tão mergulhada nas intempéries históricas.
Surge então, o garaucho, o garrucho, o gaúcho ou guerreiro
sem causa, que busca na lida uma causa para ser guerreiro, pois desafiando
o status quo, sedimentaria a vontade atávica de compor-se como
tipo adverso do homem de todo o Império. A força da História
pariu o homem que iria transformá-la.
A gestação foi tão vigorosa que, neste recanto fronteiriço,
eclode este tipo caldeado, representante do anseio de luta e de liberdade
comum a todos os povos em formação. A fronteira agasalhou
tantas lutas e disputas que todo o rio-grandense chamou-se gaúcho
e não sabemos porquê...
Conforme
o Relato
Em, 1821, conforme Augeste Saint-Hilaire em seus apontamentos o gaúcho
era "garuchos". Vinham do lado castelhano, tipos anti-sociais
que não eram bem aceitos em nossos pagos. Por muito tempo houve
nas Missões soldados de Santa Catarina, que procederam com muita
galhardia, muito contribuindo para a expulsão dos "garuchos
sempre apareciam".
Informa ainda que depois da Batalha de Taquarembó esses homens
foram repatriados, mas simultaneamente foi dada permissão, aos
que quisessem se alistar nas milícias das Missões para penetrar
nesta província. Quase todos tinham arranjado suas mulheres índias;
alguns se casaram com elas e levaram-nas com os respectivos filhos; outros
abandonaram as amásias e seus filhinhos; e enfim, houve uma centena
deles que ficaram, pelo único motivo, digamos, de não se
poderem separar de suas índias, as quais não podiam ser
apresentadas a suas famílias.
Os homens de Entre-Rios, que vi em São Borja, são notáveis
por sua grande estrutura, brancura de pele, tamanho e beleza dos olhos.
A par disso, eu e o Coronel Paulette, notamos neles um ar audacioso e
resoluto, de causar admiração. Vestem-se como os habitantes
dos campos de Montevidéu e têm uma aparência dos vilões
de melodramas. Trazem os cabelos trançados e um lenço ao
redor da cabeça; um outro lenço, a que dão um nó
muito solto, serve-lhes de gravata; como arma exibem uma faca à
cinta. Com calças brancas e franjadas, não usam paletó;
as mangas da camisa trazem arregaçadas, à moda dos nossos
açougueiros.
O
Olhar do Viajante
11-Fev-1834 A
11 de Fevereiro de 1834, o viajante francês Arséne
Isabelle, em seu livro, "Viagem ao Rio Grande do Sul",
relata a sua passagem por perto de Alegrete, dando-nos leves referências:
"... a vinte léguas, nos arredores do sul de Guaiaraca (Jararaca)
se acha, na pequena vila da fronteira da Província com a Banda
Oriental; está, segundo as informações que obtive,
perto de 30 graus e 10 minutos de latitude, (salvo erro), sobre a margem
direita do Garapuitau (Ibirapuitã), pequeno arroio chamado Ybirita,
pelos guaranis que vai lançar-se ao norte do Ibicuí. Esta
pequena vila, toda nova, fica assentada em colinas rochosas, produzindo
pastagens extremamente alimentícias. Criam-se muitos animais, e
mulas bastantes famosas. O comércio é ativo. Algumas léguas
para o sul há morros ricos em metais; um deles contém uma
mina de ouro de fácil exploração."
Há conceitos de época sobre alguns aspectos que devem ser
conhecidos, para que amplie o sentido antropológico do meio:
Animais - aves pernaltas, avestruzes, veados, capivaras,
graças brancas, garças reais, tatus, pombos, pavões
do mato, pumas, lagartos, cobras, peixes, etc
Estância - situava-se sobre uma elevação,
para que houvesse o dom';inio da região em torno.
Habitação - era de junco e caniço.
Embarcações - piroga e chalana (barco chato
coberto de um teto leve, feito de caniços e couros estirados por
meio de correias).
Perigo - ao se aproximarem os desconhecidos, o estancieiro
mandava juntar os cavalos no curral.
Pedras - seixos quartzados, pedras calhaus rolados.
Alimentação - duas refeições
diárias, guisado de charque e farinha de mandioca, misturados numa
marmita, com banha de boi e água de rio.
Cercas - eram de pedras vermelhas.
Comércio - os fazendeiros renovavam as suas provisões
em Alegrete.
Dormir - dormiam todas as noites em terrenos pantanosos.
Gaúchos, garruchos - este termo significava homens
de maus costumes que perambulavam pelas fronteiras. (Cf. Saint-Hillaire,
1821)
Surrão - sacos de couro inteiro, costurados com
cordões estreitos também de couro, onde os agricultores
guardavam o trigo.
Chácara - palavra indígena que significava
plantação.
Capão - eram os bosques pequenos.
O
Local da Primeira Capela (Queimada)
1814 - 16-Set-1816 Em
1814, o Padre José Paim Coelho de Souza, então Cura de São
Borja, junto com o Padre Joaquim Sá de Sottomaior, ao chegarem
ao Arroio Inhanduí, deram licença para o erguimento de uma
capela para que os ofícios religiosos pudessem ser realizados na
região sem se precisar recorrer à sede de São Borja.
E assim aconteceu. Foi construída uma capelinha simples, contendo
os seus humildes adornos como a riqueza maior.
Ali estaria Deus! As mais de 40 casas já estavam com a proteção
de Nossa Senhora Aparecida, pois a imagem da Santa lá se encontrava.
Tudo foi muito difícil. Eram muitos soldados, índios, chinas
e a população que acorreram ao local como sedentos de fé
e de elevação.
O campo era muito frio e distante da civilização, pois o
pequeno arraial se encontrava perdido em terras perigosas, pois os castelhanos
sempre passariam por ali a caminho das Missões.
Conforme
o padre
Naqueles dias de guerras e de invasões, a única coisa que
nos guiava era a fé. Fé em Deus, fé em nosso trabalho,
fé em nossos soldados e, principalmente, fé em Jesus e Nossa
Senhora.
Nada nos faria mudar a direção da vida, pois as escolhas
ficavam apenas entre o Reino de Portugal ou o Reino de Espanha.
Poucos sabiam ler e escrever. Apenas era Deus quem funcionava. A fé
era o sustentáculo de nossas esperanças. No meio da ventania
do minuano, no sibilar cortante deste vento sulino, abrigávamos,
em nossa sotaina, o corpo enregelado das crianças índias.
O gado, as mulas, os cavalos eram amigos e sofriam também como
nós cristãos, pois éramos uma nova raça surgindo
no entremeio de uma guerra de fronteiras.
Por isso, a fé funcionava.
Deus era bem maior e até nos poderia defender da castelhanada artiguista.
Mas, um dia, eles chegaram, assustando, derrubando e matando. O povo espavorido
saiu a vadear pelas terras e arroios, fugindo de Andres Artigas que, em
sua fúria, vinha arrasando tudo que fosse obra de portugueses.
Era o dia 16 de setembro de 1816.
Olhei, com amargura, para o pequeno povoado e todos fugiam em desesperada
corrida, deixando para trás tudo o que havíamos construído.
Deus não nos desamparou, "apenas se ocupava com a acomodação
do futuro". Ali ficou, nesse 16 de Setembro, o nosso coração,
enterrado nas margens do Inhanduí. Nunca mais lá choraríamos
nossa terrinha. Fomos fugindo pelo campo a fora, sem saber para aonde
ir e nem aonde chegar. Tudo se turvou naquele início de primavera
tristonha. A tropa do Comandante Abreu foi socorrer, mas toda a gente
se espalhou como boiada em estouro e levou uns bons meses para reunir
todos outra vez. Mesmo assim, todos foram chegando até a margem
esquerda do Ibirapuitã.
Nas margens do Ibirapuitã, o local era lindo. Muito domínio
de visão tínhamos do rio. Naqueles dias, do local da praça,
víamos todo o rio e os campos com poucos capões de mato.
Ali, na margem localizou-se o acampamento. Barracas, choças de
capim, cozinha ao ar livre, era essa a realidade! O Comandante e o Padre
eram a lei!
Da triste Capela Queimada, veio quase tudo que se podia carregar, até
a santinha que se perdeu. Aqui, estávamos desnorteados, sem nada
e na insegurança de novos ataques.
O Comandante Abreu foi para São Borja atrás do Andresito,
isto nos deixava com a respiração aos saltos.
Sobre
o Primeiro Batizado
26-Dez-1816 Um
mês após a fuga, em 15 de outubro (de 1816), o casal Jose
Soares Xavier e Luzia Maria Soares ganham o primeiro habitante da nova
povoação, Zeferina.
Onde seria o batismo? Como entregar esse inocente a Deus, se não
havia uma casa de Deus? O dia 25 de Dezembro seria primeiro Natal que
atravessaríamos sem o calor de nossa festividade e missa. Pareceu-nos
tão triste essa noite. Meu Deus, como poderíamos estar sem
uma casa para homenagear o Menino Jesus.
Era uma grave falta! O povo meio choroso chamou-me e, como motivo maior,
lembrou, em torno daquele fogo vivo, que a pequena Zeferina precisava
receber o Sacramento. Olhavámos para a fogueira e, em torno, a
noite era um breu terrível, salpicado de estrelas brilhantes. Lá
em cima, Deus nos olhando.
Este verão foi abafado e solitário!
No outro dia, o povo em rebuliço, programou o batizado. O milho
foi assado, junto com a carne. Toda a tropa e o povoado estavam olhando
para as mãos sagradas do Sacerdote que, ágil, embebeu a
pequena cabecinha de Zeferina em água límpida, espargindo
também no povo a graça de serem abençoados. Não
sei, parece que todos se alegraram, quando a menina foi despertando para
Deus.
O batismo realizou-se em meio a cantoria e festa. As cigarras berravam,
os insetos zuniam e a esperança nos inundou. Não sei se
foi gratidão ou um bom sinal, mas o padrinho foi o próprio
Capelão do Exército, o Padre José de Freitas.
Era preciso pensar na organização de um novo povoado, pois
as crianças já estavam nascendo.
A
Chegada do Marquês
Era janeiro de 1817, e o Marquês chegou. Era um belo homem, imponente
nobre português que vinha para os combates. Todos acorreram curiosos.
Lá estava ele, com seu Estado Maior, planejando, naquela manhã
ensolarada, observando aquele povo desorganizado e também de sua
responsabilidade.
O Comandante Abreu pediu que todos ficassem juntos atrás da coluna
do exército. Ali ficamos. Reunimos os homens e levamos "mui
respeitosamente" ao Digno Marquês, o pedido do povo, para que
pudesse erguer outra vez uma capela, invocando sempre o nome de Nossa
Senhora da Conceição. Leu atentamente nosso pedido e respondeu
que poderíamos erguer uma capelinha no local mais alto (hoje Praça
Getúlio Vargas, na entrada da Rua Nossa Senhora do Carmo) e também
um hospital para os feridos. Todos festejaram e partiram para os planos
de como organizar o povoado nascente.
Havia poucas árvores, a não ser nas margens do Ibirapuitã,
entretanto, tinha mais peixe. O belo rio atraía as capivaras, as
avestruzes, os pumas e muitas garças e marrecos.
Esse período de paz durou onze anos, quando, em 1828, Barnabé
Rivera evacuou o local e incendiou a humilde Capela.
Sobre o Primeiro Casamento
04-Set-1820 Em
três anos de povoado, era uma simples choça, foi necessário
providenciar urgentemente a arrumação da Capela e do altar,
pois estava perto de se realizar o primeiro matrimônio.
Naquela noite de 04 de Setembro de 1820, com solenidade e respeito se
entregavam a Deus o Alferes José Ribeiro de Almeida e Dona Umbelina
Maria Gonçalves. Era gente de importância, pois ele era irmão
do Tenente-Coronel Bento Manoel Ribeiro de Almeida, o grande proprietário
de 14 léguas de sesmaria no Cerro de Jarau.
Foi uma cerimônia às 8 horas da noite. As velas acesas rasgavam
a escuridão, as flores brancas e um forte cheiro de incenso faziam
moldura para a elevação do sagrado matrimônio.
Quando o Pároco Manoel Fernandes de Almeida os abençoou,
parece que os anjos vieram até suas frontes depositar a riqueza
sagrada do enlace que iria para sempre acompanhar todos os que aqui nesta
terra casassem.
Uma suave Ave Maria cortava o ar, como se uma orquestra de sonhos acalentasse
para sempre a relação. A cerimônia foi simples e todos
choraram, pois este primeiro matrimônio finalmente faria as raízes
de Alegrete se tornarem firmes para sempre.
Os noivos vieram de Cachoeira, assim como a jurisdição da
toda a terra do grande município. A noiva em seu vestido imaculadamente
branco, com flores e pérolas, estava trêmula, amparada nas
mãos do amado noivo. O noivo, o Alferes em sua farda de um azul
profundo, deixava transparecer, além da postura soberana, o brilho
sedutor do ouro das dragonas e dos botões. Naquela noite inesquecível,
ao passarem pela guarda com espadas, se realizava o mais belo sonho de
um casal, a sua união eterna e indissolúvel.
Assim, no arraial, abençoado por Nossa Senhora, para sempre haveria
novas gentes que viveriam e amariam esta terra como seu torrão
natal.
Sobre O Primeiro Óbito
02-Mai-1822 Ali
estava a nova Capela do povoado de Alegrete!
O resultado do nosso esforço estava bem à nossa frente.
Do acampamento militar pouco restou. A população não
chegava a mais de 200 almas, poucas choupanas e ranchos. Passeios mal
traçados, e um terreno vasto na frente da Capela. Na parte sul,
o Rio Ibirapuitã se acomodava como uma serpente de esmeraldas,
adormecida entre as pedras negras. Em sua parte mais rasa (hoje Porto
dos Aguateiros), retirávamos a água para o consumo da incipiente
população.
Eu residia ali mesmo, nos fundos da Capela. Dormia em um simples catre
de couro curtido que me servia para descanso e meditação.
O pequeno altar brilhava, quando anoitecia, pois o lume das velas fazia
com que os reflexos vívidos enchessem meus olhos de esperança
e de fé.
O que mais se destacava era a imagem da Padroeira, com seu Menino Jesus,
humildemente colorindo minhas horas de reflexões e apelo. O cálice
dourado era a nossa riqueza, compondo com o crucifixo do altar, a mais
alta homenagem que poderia ter ficado da Capelinha que foi queimada no
Inhanduí.
Meus
amanheceres eram surpreendentes, pois o rio era o companheiro para que
a paisagem se tornasse exuberante. Garças, pumas, veados, e outros
animais eram figuras em animação em minhas orações,
tanto nos entardeceres violáceos, quanto nas manhãs brumosas.
Cada vez que eu me dirigia ao rio, percebia árvores frondosas,
onde seu silêncio majestoso só era quebrado pelo ranger da
galharia, ou o arrulhar carinhoso das pombas cinzas, irizadas pelo sol
inundante.
Que paz neste lugar! Daquele local, eu descortinava o grande meandro do
rio, que peixe e água distribuía sem nunca exaurir.
Mesmo nas cheias mais volumosas, as águas nem perto das casas chegavam.
As pedras imensas eram faróis negros que demarcariam para a eternidade
o pórtico do cemitério da povoação. Aquele
descampado descia em ribanceira e, quando o capinzal secava, um fino manto
dourado cobria o solo negro. Ali seria o Campo Santo que certamente abrigaria
as ovelhas de nosso rebanho tão simples.
Os homens deram início ao corte das pedras para que as sepulturas
não ficassem tão ignoradas.
A vida corria calma, entretanto, o medo das invasões era sempre
presente, pois as notícias se arrastavam e, quando até nós
chegavam, já eram velhas. Mas se encontrava vigilante o nosso grande
Comandante Abreu. Seu batalhão de guerreiros percorria os campos
e guardava a terra e o povo. Finalmente, o benemérito Antônio
José de Vargas distribuiu as terras para que o povoado pudesse
se espalhar seguramente.
As doenças rondavam e sem um médico, a não ser o
da legião do exército, ficava tudo difícil. Apenas
era mais entendido o velho José Araquim, índio das bandas
do Japeju. Sabia manipular suas ervas e entoar suas lamúrias para
que qualquer mal se desfizesse. Era por todos respeitado, sendo seus 78
anos uma riqueza de conhecimentos dos campos e da vida. Muitos se curaram
com ele, entretanto, em determinados momentos, Deus era mais forte em
seu chamado, e o velho índio desculpava-se... quase chorando! Este
amigo acompanhava-me a todos os lugares onde existissem doentes e, agora,
sabíamos que chegara a hora de conservarmos na fé, até
aqueles que certamente teriam de morrer.
Thomaz Areni, índio criado na religião, há dois dias
chamou-nos em seu rancho, para acompanharmos os dias finais de sua filha
Bartola Areni, completamente tomada pelas bexigas. Estava em seus momentos
finais e Thomaz cheio de desespero, rogava para não se separar
de sua amada filha.
Sentimos que este seria seu último dia. Ocorreu-me, então,
que o lugar santificado para enterrar aquele corpo humilde coberto de
pústulas fatais, estava determinado. Escolhi a ribanceira dourada,
que teria como fundo o perfumado e piscoso Ibirapuitã. E assim
foi.
No amanhecer de 2 de maio de 1822, despede-se da vida a humilde Bartola,
desesperando todos. Depois de demorado velório, enrolada em panos
simples, foi levado à cova aquele corpo esquálido e pequeno.
As orações fúnebres, recitadas com a força
de meu coração, endereçaram ao Senhor este primeiro
corpo que definitivamente ficaria engastado na terra do povoado, envolvido
pela suprema proteção de Deus.
Assim, nasceu o primeiro Cemitério, que, durante muitos anos, abrigaria
as almas dos habitantes do povoado, abraçados pelas curvas esverdeadas
do Ibirapuitã amigo...
Sobre
a Escravidão Uma
das maiores chagas da história do Império Brasileiro foi,
sem sombra de dúvida, a escravidão.
Os padres e os comerciantes trouxeram o negro para a
América, pois os índios não se prestavam para o trabalho
escravo, porque, quando não acabavam morrendo de tristeza, se tornavam
furiosos e fujões.
Os índios tinham uma vida livre, sempre baseada na liberdade de
fazer o que tinham vontade e se negavam a tudo que os compelisse a um
novo comportamento. O negro era menos resistente ao trabalho, pois tinha
o espírito macio e afetivo. Era difícil fugirem para as
florestas e descampados, porque a terra não era sua, por isso,
se submetiam mais facilmente ao branco.
As mulheres negras eram tratadas diferentes, pois além
de serem uma "propriedade econômica" na sociedade branca,
valiam como moeda de permuta. As negras eram assediadas pelos brancos
portugueses que se deixavam levar por suas abrasivas paixões, pois
o condimento da capacidade de amar existia na delicadeza sensual e no
carinho distribuído por seu espírito.
A sociedade branca não conseguia nutrir uma relação
afetiva com os índios, pois eram seres mais rudimentares, nunca
dados a grandes amores e devoções. Os índios eram
frios e se dedicavam sempre à lide campeira. Eram feitos para o
campo. O seu espírito tosco não conseguiu evoluir por não
possuírem um conceber religioso em maior alcance. Do índio
ficou como herança toda a lide campeira, o chimarrão, o
fumo e principalmente o churrasco. Sempre coisas que se pode fazer sozinho.
As mulheres praticamente não deixaram herança.
A herança negra se espalhou nos sentimentos, na música,
nas cantigas de ninar, nas poções mágicas, nas rezas,
na religião e acima de tudo pela profunda interação
com os elementos brancos, através das amas de leite que sustentavam
as famílias mais abonadas.
Em
toda a sua história, Alegrete contou com mais de 3.000 escravos,
sendo alguns tratados com extrema crueldade, conforme atesta o "Código
de Postura da Câmara Municipal de Alegrete", Código
disciplinar para os escravos negros.
A 18 de Dezembro de 1848, na Praça da Vila depois de ter sido confinado,
foi enforcado o réu Valentim de idade de 20 anos
e escravo do Coronel Olivério José Ortiz.
O pelourinho da Vila seria o símbolo da autoridade e da justiça.
Um dia após a Vila de Alegrete ter recebido os foros de cidade,
a 23 de Janeiro de 1857, aconteceu o seguinte fato, conforme atesta o
Livro de Óbitos 02 da Capela de Alegrete, no registro do Pároco
Pedro Pierantoni: "Aos vinte e três dias do mês de Janeiro
de mil oito centos e cinqüenta e sete, nesta Vila de Alegrete, faleceu
Flora afogando-se voluntariamente a mulata Flora, e a negra Maria,
tendo a mulata Flora afogado suas filhas Ricarda e Ubaldina, e a Preta
Maria afogado sua filha Balbina. Foram os três inocentes
enterrados no Cemitério Novo desta Vila. Todos são escravos
de Francisco da Luz".
No
período compreendido entre 1884 e 1888, sob a presidência
de Luiz de Freitas Valle Filho, o chefe do Partido Conservador, a Câmara
de Vereadores estava preocupada com a Abolição da Escravatura.
O Presidente Luiz de Freitas Valle fundou o Club Emancipador para ser
o porta-voz do Movimento Abolicionista nesta cidade. Essa entidade foi
de tal atividade que, quando foi decretada a Lei Áurea, nenhum
cidadão era escravo em Alegrete.
A Abolição da Escravatura aconteceu em Alegrete a 07 de
Outubro de 1884, quando o município foi declarado livre da escravatura,
resultado da campanha abolicionista dirigida pelo Club Emancipador, presidido
pelo Comendador Luiz de Freitas Valle, Barão do Ibirocay.
O
Relato do Cônego
02-Abr-1849 O
Cônego João Pedro Gay, Reverendo Pároco de Alegrete,
em 02 de Abril de 1849, relata que "a povoação atual
da Vila de Alegrete podia avaliar em 1.500 habitantes, a da campanha que
lhe pertence é superior e excede, talvez, a 4.000 habitantes. Na
Vila a maior parte dos moradores emprega-se no comércio, que é
muito considerável. Os outros são descendentes dos Guaranis,
e podem formar a oitava parte da povoação e, em geral, servem
de piões nas estâncias. Eles facilmente submetem-se a todo
o trabalho de campo por módico salário, porque esta vida,
além de ser a de sua criação, favorece muito a sua
índole, um pouco ativa. Os africanos são pouco numerosos
e quase todos nos serviços internos das casas, exceto muito poucas
quitandeiras, que andam vendendo frutas, doces e pão".
vila.........1500 habitantes
campanha.....2500 habitantes
total........4000 habitantes
Em
se tratando de ensino, havia apenas uma escola particular de primeiras
letras, com freqüência extremamente escassa.
"Em se tratando de fatos econômicos, a Revolução
Farroupilha que sacudiu os princípios conservadores da sociedade
da Província do Rio Grande deu um abalo às fortunas dos
particulares, e paralisou o aumento da interessante Vila de Alegrete.
Não achareis nela monumento a nenhuma classe".
O Cônego João Pedro Gay foi o autor da História da
República Jesuítica do Paraguai, que abrange desde o descobrimento
até o ano de 1861.
Os
Sinos Missioneiros, Um Grande Achado
1935 Quando
o Coronel Rufino Baptista de Freitas, proprietário das terras,
Estância de São Miguel, outrora pertencente aos jesuítas,
no Rincão de São Miguel, ao fazer escavações
para o plantio de um arvoredo, encontrou um sino missioneiro. que finalmente.
Em 1860, doou para a Igreja Matriz. Ali o achado permaneceu até
a sua derrubada da Igreja para erguer a atual Matriz, em 1915. A antiga
Matriz possuía quatro sinos. Dois deles por estarem imprestáveis
não foram aproveitados. Ao terminarem a construção
da atual Matriz, em 1919, dois sinos ficaram depositados no pátio
do Colégio Católico. Um dos sinos estava fendido e o outro
partido, ambos sem badalo, por isso ninguém lhes atribuiu o valor
histórico que representavam. Em 1935, quando o Dr. Constantino
Rodrigues de Freitas, o Coronel Laurindo Ramos e Dr. Rui Ramos visitavam
as dependências do Colégio Católico, se surpreenderam
com os sinos históricos. Em seguida, foi comunicado ao Desembargador
Florêncio de Abreu, pedindo a vinda de um enviado do Museu do Estado.
O sino maior, com mais de 500 Kg, possuía em relevo
em dois lados a cruz trifoliada dos Jesuítas; na circunferência
da base, toscamente gravada a legenda "Ora Pro Nobis" (Rogai
Por Nós), ainda nos últimos frisos, gravadas as letras "SJ"
(Sociedade de Jesus)
O Sino menor, muito mais simples, despido de adornos,
não trazia a cruz característica dos Jesuítas, nem
as iniciais da Ordem. Nele tinha apenas à frente a frase "Sante
Patter Ora Pro Nobis" (Santo Pai Rogai Por Nós) e a data de
"29 de Junio de 1718".
Nada mais se sabe sobre o destino que tomaram os achados. Certamente foram
remetidos para a Catedral Metropolitana de Porto Alegre.
Nosso
Grande Teatro
Mai-1862 Quem
olhasse para a cidade veria um bem traçado modelo urbano. Existia
uma boa pensão, uma Igreja Matriz, uma maçonaria, padarias,
mas e a diversão? Onde seria? A aristocracia rural necessitava
de coisas novas, pois as grandes companhias teatrais apenas aqui passavam
sem chegar. Mesmo assim houve gosto, pelas manifestações
artísticas.
O Teatro de Alegrete foi uma construção de 1862, erguida
por conta uma de Associação Anônima, sendo diretor
da obra o Major Olivério José Ortiz. Depois de construído,
foi administrado por uma Sociedade, sob a presidência de Manoel
de Freitas Valle. Esta obra foi entregue pronta em Maio de 1862.
A casa do teatro era o edifício mais bonito, tendo em sua frente
uma sacada para que todas as funções públicas dali
pudessem ser apreciadas pelas autoridades. Foi um prédio modesto
com 28 camarotes, dispostos em duas ordens, com acomodação
para cinco ou seis pessoas, totalizando 148 poltronas. Por cima dos camarotes
ficava a galeria que podia conter 100 lugares. A platéia comportava
150 pessoas sentadas. Normalmente havia um total de 400 lugares à
disposição do público.
O seu primeiro nome foi Teatro Independência, passando, depois,
a chamar-se Teatro São Luiz até 1891. Nesta época,
achava-se quase em ruínas e foi arrematado por uma Sociedade que
fez os reparos, mudando-lhe o nome para Teatro 13 de Maio.
Neste local, em 1911, estabeleceu-se o Cine Teatro Rio Branco, o primeiro
cinema da cidade. Em 1912, em um, de seus camarotes, foi assassinado o
Subintendente do 1° Distrito, o Capitão Joaquim Domingues Vieira.
Por aqui, passaram companhias dramáticas, cômicas, pequenas
troupes, e até companhias líricas (brasileiras, espanholas,
francesas, italianas). Vieram também concertistas e cantores de
renome nacional e internacional. Chegaram também Companhias líricas
de canto, dança, representação, declamação,
ópera etc, vindas da Itália, França, Montevidéu,
Buenos Aires, Espanha, Portugal, Rio de Janeiro e São Paulo.
Singulares tempos aqueles em que o teatro dos grandes centros tinha condições
para representar no interior.
Assim Alegrete passou a se constituir como uma cidade onde o gosto pelas
realizações artísticas era valorizado ao máximo.
Vinham companhias de Montevidéu e, na passagem por Alegrete, ficavam
muitas vezes aqui residindo.
O teatro o teatro enchia. Era um acontecimento na cidade. As companhias
líricas traziam, já nas primeiras décadas deste século,
orquestras inteiras, onde eram realizados consertos de música clássica
e de caráter popular. As entradas valiam de 5 a 10 mil réis
e eram caríssimas. Atores representaram como: Juigi Delaguardia,
Clara Delaguardia, Mini Aguglia e Gustavo Salvini.
O prédio foi demolido em 1955 para, no local, ser erguido edifício
do Foro da Comarca de Alegrete.
Um Dia de Realeza
06-Out-1865 Em
Setembro de 1865 foram iniciados os preparativos para a chegada do Imperador
sua comitiva imperial. O povo, assim como as autoridades se puseram a
trabalhar para receber o grandioso imperador.
A Igreja armou a entrada com um dossel que encheu os olhos de todos, pois
representava um luxo que só poderia ser feito para grandes autoridades.
Foi realizada uma Missa, um belo Te Deum, onde foram cantadas as mais
peças de Ave-Maria.
Chegou o dia 6 de Outubro. A cidade de Alegrete recebe D.Pedro II, vindo
em carruagens, que passava rumo a Uruguaiana com seus genros (Conde D'Eu),
Ajudantes de Campo, Ministro da Guerra e mais a comitiva imperial. Sua
Majestade Imperial veio se encontrar com as forças em operação
na frente de Uruguaiana, ocupada por Estigarribia.
Alegrete era administrada pelo Conselho Municipal de Representantes, tendo
à frente o Presidente o Dr. Belchior da Gama Lobo D'Eça.
A Câmara Municipal, auxiliada pelos homens ricos do lugar, improvisou
o Paço Imperial no pequeno sobrado na Praça da Igreja, hoje
lembrado como Solar D. Pedro II. Ali foram assinados alguns decretos que
vêm na coleção de leis de 1865. O monarca e sua comitiva
não regatearam elogios ao acolhimento prestado pela população
alegretense.
Comissão de recepção à Sua Majestade:
Mathias de Almeida
Galdino de Freitas Noronha
José Evaristo dos Anjos
Venâncio José Pereira
Olivério José Ortiz Filho Dr.
Eduardo José de Miranda
José Pedroso de Albuquerque
Dr. Juvêncio Cardoso da Cunha
Joaquim dos Santos Prado Lima
José Carlos Pinto
Manoel de Freitas Valle
General Vasco Alves Pereira
Joaquim Guedes da Luz
Manoel Fernandes Dornelles
Simplício Ignácio Jacques
Dr. Severino Ribeiro
Luiz Ignácio Jacques
Luiz de Freitas Valle
José Maria Xavier de Brito
As impressões desse dia 6 de outubro de 1865 ficaram impressas
em todas as mentes, sendo o assunto predileto de todas as rodas de conversas,
durante muito tempo.
Depois da passagem do Imperador, a atual Rua General Neto, ficou conhecida
oficialmente como Rua dos Príncipes.
A
Loucura do Gênio
Mar-1871 Em
Março de 1871 o jornal alegretense, A Justiça, foi criado
por José Joaquim de Campos Leão, apelidado de Qorpo-Santo.
Segundo palavras de Luiz Araújo Filho, "se tornou célebre
pela mania que manifestou de reformar a ortografia portuguesa, usando
o sistema fonético exagerado. Era um homem de regular instrução,
mas sofria de desequilíbrio mental, como se vê nos volumes
de poesia que deixou em estilo desconchavado e absurdo". O jornal
foi a porta para que o gênio tornasse pública a sua impressão
do mundo e como o sentia em toda a sua brutalidade.
Qorpo-Santo lançou em Alegrete, segundo consta nas Anotações
Biográficas dos Cadernos do Extremo Sul, de março de 1957,
"com seu estilo desaconchavado, lançou os fundamentos do movimento
modernista que, meio século mais tarde, surgiria no âmbito
mundial, através de Marinetti".
Em 1966, o Professor Guilhermino Cezar, constata "sou eu o louco
ou o teatro de Qorpo-Santo toca às raias da genealidade".
Várias de suas peças são encenadas em Porto Alegre,
como "As Relações Naturais", "Matheus e Matheusa"
e "Eu Sou a Vida e Não Sou a Morte", com sucesso absoluto
e, certamente, redentor do século de silencia que envolveu a obra.
Na famosa biblioteca de obras raras rio-grandenses de Julio Petersen constam
duas edições de José Joaquim de Campos Leão
(como ele se grafava), ambas editadas em 1877, em Porto Alegre, na Tipografia
Qorpo-Santo. A primeira, o volume 2 da "Ensiclopédia ou Seis
Mezes de uma Enfermidade", consta, na capa, "serem produções,
com raras exceções, de 1862 a 1864, na Vila do Triunfo,
terra natal do dramaturgo". O segundo, "A Saúde e a Justiça"
(livro 7), possui 45 páginas sob o título "Justiça
em Alegrete (1871)".
O
Mais Importante bem da Cidade
15-Ago-1872 A
15 de Agosto de 1872, a Igreja Católica, a classe
política e os médicos preocupados com a inexistência
de um hospital, unem-se para angariar fundos para a construção
de um nosocômio.
O visionário José Carvalho Portella lança a pedra
fundamental da Santa Casa de Caridade. Foi inicialmente instalada, parte
sul da cidade, no local onde hoje funcionam a Delegacia Estadual de Saúde
e a Secretaria Municipal de Saúde.
O referido prédio foi inaugurado a 5 de março de
1876, cujo patrimônio pertencia a uma Associação
Beneficente, integrada de benfeitores. com patrimônio pertencente
a uma Associação Beneficente. Era um edifício sólido
de 22 metros de frente e 14 e meio metros de fundo, dividido em quatro
secções desiguais. Na parte da frente, à direita,
encontrava-se a Capela de Santa Rosa de Viterbo, padroeira do pio estabelecimento,
à esquerda encontravam-se a Secretaria e a Sala de Operações
Cirúrgicas. Ao fundo duas secções maiores, separadas
pelo corredor destinadas à direita para os homens e à esquerda
para as mulheres. No pátio encontravam-se a cozinha, o quatro de
banho e os alojamentos dos funcionários. Havia também um
Algibe.
Em maio de 1905, foi decidido, pela direção
do Hospital, pelo Provedor Luiz Ignácio Jacques, entregar os doentes
e a economia da casa às Irmãs de Santa Catarina, de Novo
Hamburgo. Foram designadas para tal, as Irmãs Maria Plácida
e Maria Blanda.
A idéia da construção de uma nova Santa Casa teve
vários idealizadores, entretanto, salientou-se o Frei Caio de São
José, seu Provedor, de 1930 a 1932.
O terreno, situado no norte da cidade, no outro extremo da mesma Rua General
Sampaio o qual foi doação dos sucessores de Manoel de Freitas
Valle Filho, através da escritura de uma quinta parte do então
Moinho Santo Antônio. O terreno mede 120m de frente por 300m de
fundo. O prédio novo foi concluído em 1932, quando há
a transferência de todo o aparato hospitalar. Foi seu construtor
a Firma Dahne Conceição. Apesar das dificuldades, a Santa
Casa vem se mantendo como o Hospital que maior número de atendimentos
presta a esta cidade.
Em 1932 por idéia do Frei Caio de São José, sacerdote
da Ordem dos Carmelitas Descalços, a Santa Casa foi transferida
para a parte norte da cidade, na quinta parte do Moinho Santo Antônio,
onde hoje se localiza a Santa Casa.
Todos os médicos aqui residentes, tanto civis como militares, sempre
prestaram, generosamente os seus serviços profissionais ao pio
estabelecimento, tornando assim imorredouro seus nomes.
A Primeira Propriedade da Câmara
30-Jun-1879 Em
1834, toma passe a primeira gestão da Câmara de Vereadores,
sendo mais alto órgão de administração do
município. Por ousadia de seu presidente José Velloso Pacheco,
em 1876, teve início a construção
de uma sede própria.
A 30 de Junho de 1879 foi entregue do Palácio
da Intendência Municipal de Alegrete, no governo do Presidente da
Câmara Simplício Ignácio Jacques. É um edifício
situado na Praça Getúlio Vargas, face leste, esquina da
Rua Demétrio Ribeiro. Possui 23m de frente por 18m de fundo.
Foram construtores os mestres de obras Caetano Bianchi e João Veinant.
A obra custou ao município 34:000$000.
É um edifício assobradado, sólido e elegante, assentado
sobre um embasamento feito de grês e de cimento de 0,75cm de espessura.
Com 2m de altura, sendo, daí para cima, paredes feitas de tijolo
e cal, com 50 cm de espessura, tendo, do assoalho ao teto, 6,5m. A altura
do frontispício, da calçada ao nível da platibanda,
é de 10 metros.
Nas 11 salas existentes, funcionavam: vestíbulo, sala de espera,
Biblioteca, Secretaria, Tesouraria, Arquivo do Tesouro, Salão do
Conselho, Gabinete do Presidente do Conselho Municipal (Câmara de
Vereadores), Diretoria de Obras, Salão de Vidro.
Neste prédio, funcionou o Conselho de Representantes, composto
por 9 vereadores, sendo o mais votado, o Presidente, fazendo o papel de
Intendente. O Poder Executivo, com o cargo de Intendente, só veio
a se constituir com a Proclamação da República. No
mesmo edifício funcionava o Foro da Comarca, com a Sala do Júri
e Gabinete do Juiz. Na parte dos fundos do prédio, foi, mais estabelecida
a Cadeia Municipal e Sub-Intendência do Primeiro Distrito.
O Foro da Comarca deixou o prédio da Intendência a 7 de Setembro
de 1925.
A Câmara de Vereadores deixou o Prédio da Prefeitura Municipal
em 1973.
Um
Fato Pitoresco
01-Abr-1855 Um
cidadão, em 01 de Abril de 1855, escreve o seguinte para notificar
à população a importância de seu trabalho.
Foi publicado por um fiscal (sem alusão ao Lamego) dos tempos de
Maria Castanha. O estilo é o mesmo das bolorentas Ordenações
e a peça literária merece a atenção dos leitores:
Alonso
de Noronha Pires Franco, Fiscal aprovado pela câmara desta Villa:
Faço saber aos povos da minha vara que no dia 4 do mês sairei
em triunfo de correição, aferindo os pesos de todos, bem
como as varas respectivas. Para conhecimento dos interessados exploradores
do povaréu, dou o artigo da lei abaixo:
01 - Ficam proibidos todos regos. Aquele que não tapar os que tiver,
bem como todos os buracos será multado em 20$000.
02 - Nenhum animal da ordem das cabras poderá roer no visindário.
03 - Todo aquele que tiver seu bicho que o traga bem seguro, se andar
solto multa de 5$000.
04 - Nenhum negociante ou taverneiro, ainda mesmo Coronel da Guarda Nacional,
poderá vender farinha em culhas que é ladroeira, multa de
5$000.
05 - Negro sem bilhete tarde da noite é ladrão. Multa no
senhor de 5$000.
06 - Galego de braço com negra cativa, de noite, é fábrica
de mulatos malcriados: cadeia nos dois (um em cada xadrez por causa das
dúvidas).
07 - Todo o indivíduo da raça canina sem a coleira - bola
que lhe valha. Assim mesmo que seja desses de cabelinho branco amarelado
e divertimento das moças e viúvas.
08 - Proibida a venda de leite com água ou água com leite,
porque prejudica o negócio lá da minha dona. Quebrarei a
cuia do vendilhão.
09 - Boi ou vaca deitado na rua sem lanterna nos chifres de modo que os
andantes o vejam bem de longe, multa de 5$000.
10 - Cantadores de modinhas desafinadas tarde da noite na porta das caçoilas,
cadeia até de manhã, porque não quero esses desaforos
cá pelos meus fundos.
11 - Ninguém poderá andar armado ou com armação
alguma, nem de pau na mão, de noite, que é perigoso. Multa
de 4$000.
12 - Negra ou mulata que andar na rua de noite toda se requebrando - cabeça
rapada e uma dúzia de bolos, para evitar o desaforo de certos velhos
que andam de rixas com as mulheres.
13 - Toda contraversão omitida nesta postura, será resolvida
pelo meu pau.
E para constar e não dizerem depois que não sabiam, mando
pregar este na porta do açougue e na frente do boticário,
lugar onde se fala da vida alheia.
Catimbau,
01 de Abril de 1855.
Alonso de Noronha Pires Franco.
(Cf. Jornal "A Fronteira" de Quaraí, n° 616, de 07
maio de 1902)
O
Conde D'Eu e a Santa Casa de Caridade
04-Fev-1885 A
04 de Fevereiro de 1885, o Príncipe Gastão D'Orlens, Conde
D'Eu é recebido pela Mesa Administrativa da Santa Casa
de Caridade. A ata do pio estabelecimento assim diz: "Aos quatro
dias do mês de fevereiro de mil oitocentos e oitenta e cinco, nesta
cidade de Alegrete, e na sala de sessões da Santa Casa de Caridade
de Alegrete, presentes o Provedor Dr. José Gonçalves Marques,
Escrivão Alfredo Gonçalves dos Santos, Tesoureiro João
Rodolpho Soares e Mesários Ignácio Baptista de Freitas,
Astério Cândido dos Santos, Francisco José Tavares,
Felippe José Pinheiro de Lemos, Cândido Rosário da
Silva, e Ângelo Moreira, havendo número legal foi aberta
a sessão. Pelo Irmão Provedor foi declarado que o fim da
presente sessão extraordinária era para receber-se neste
estabelecimento a visita de Sua Alteza Real o Senhor Príncipe Gastão
D'Orlens, Conde D'Eu. As dez horas da manhã, achou-se neste estabelecimento
o Sereníssimo Príncipe, acompanhado de sua comitiva, e o
Irmão Provedor convidou aos Irmãos Mesários para
formarem alas, e nomeou uma Comissão para acompanhar Sua Alteza
até a porta principal deste edifício. Depois de visitar
a Capela, Enfermaria e todos os compartimentos da Casa, foi-lhe apresentado
o livro de visitantes, e assinado este, retirou-se deixando a quantia
de 200$000 réis, e fazendo votos pelo engrandecimento e prosperidade
desta Instituição.
Em seguida, o Irmão Provedor fez ver à Mesa que devia esta
conferir à Sua Alteza o diploma de Irmão Benfeitor desta
Instituição pela obra humanitária que acabava de
praticar. Unanimemente aceita esta indicação, expediu-se
o respectivo título, sendo entregue por uma comissão composta
dele Provedor e os Mesários, Cândido Rosário da Silva
e Ignácio de Freitas. Arrecadou-se de esmolas mais quantia de 40$200,
sendo tudo entregue ao Irmão Tesoureiro. Nada mais havendo a tratar-se,
suspende-se a sessão. E para constar, eu Alfredo Gonçalves
dos Santos, escrivão que o escrevi e assino.
Sua Alteza esteve hospedado na casa de residência onde hoje se encontra
a Promotoria Pública. Esta casa foi primeira a ter banheiro com
vaso, acredita-se que fosse para dar mais conforto ao Conde D'Eu. Foi
festivamente recebido pela comunidade, deixando em todos a impressão
de humildade e reconhecimento, pois seria naturalmente o Príncipe
Consorte da Princesa Isabel.
A Febre Amarela mata o Dr. Sylla Teixeira da Silva
20-Set-1918 Correu
na cidade de Alegrete a dolorosa noticia de que faleceu a bordo em viagem
para França, o distinto conterrâneo e estimado clínico
Tenente Dr. Sylla Teixeira da Silva que fazia parte da missão médica
brasileira que foi prestar serviços à causa dos aliados.
Essa notícia brusca e tristíssima de morrera de febre amarela
no navio que o levava para compor o Corpo Médico Internacional,
em prol dos Aliados na I Guerra. Embora carecendo ainda de confirmação
oficial, causou entre todos a maior e a mais profunda das emoções,
pois o Dr. Sylla era cercado pela estima dos seus conterrâneos que
admiravam as suas brilhantes qualidades de caráter e de inteligência.
Assim que a noticia se espalhou na cidade, várias foram as manifestações
de vivo pesar que surgiram espontâneas e sinceras. A "Farmácia
Popular" do farmacêutico Péricles Silveira cerrou as
suas portas e o cinema "Treze de Maio" suspendeu o seu espetáculo
em sinal de pesar. Infelizmente, foi confirmada a triste noticia e a "Gazeta"
rendeu a sua homenagem ao prezado conterrâneo, ao distinto clínico
cujo exaltado patriotismo fez com que ele cheio de vontade e cheio de
orgulho, abandonasse a paz e o conforto para seguir em demanda dos campos
ensangüentados da Europa.
Naquele dia, Alegrete amanheceu de luto, pois em todos havia a consternação
e a perplexidade, pois o médico sempre representou a penúltima
esperança de vida e um grande médico se despedia para nunca
mais voltar.
(Ver
foto no Cemitério)
Os
Pêssegos de José Paoli
07-Dez-1918 José
Paoli, proprietário do acreditado Hotel Brasil,
comprou em Uruguaiana 5.000 pêssegos, gordos como bochechas de criança,
macios como veludo e doces como o sorriso do Dr. Raphael Escobar.
José Paoli pôs-se a vendê-los. Depois de vender muitas
dúzias, se apresentou no Hotel o Dr. João Benício,
Intendente, acompanhado de um fiscal da Intendência e proibiu José
Paoli de continuar a venda dos pêssegos.
O Intendente vira os pêssegos na rua e lançara-lhes um olhar
e, graças aos olhos que possui, olhos que dispensam os exames químicos,
conheceu que os pêssegos matariam instantaneamente quem os ingerisse.
Os frutos estavam maduros. O tempo que tem sido excelente, devido às
chuvas, apressou-lhes o amadurecimento. Nenhuma das pessoas, que haviam
comido, sofreu a mais leve transformação na saúde.
O Intendente, porém, sabe o que faz. Ele que disse que os pêssegos
empeçonham, é porque tem certeza de que os seus olhos não
o enganam. Assim, como ele conheceu, tanto que os viu, que os pêssegos
intoxicariam quem os comesse, conheceu, também, que as pêras
verdes e as laranjas azedíssimas cuja venda se faz há muitos
dias aqui, nenhum mal causarão a quem as meter no bandulho. Descobrissem
os seus olhos, nas pêras e nas laranjas, o veneno que encontraram
nos deliciosos pêssegos do Sr. José Paoli, e ele já
teria proibido a venda daquelas frutas.
(Desenhar
o Hotel Brasil na esquina do Cassino, com pêssegos na frente)
Uma
Grande e Pesada Notícia
08-Dez-1920 No
dia 8 de dezembro de 1920, deveria chegar a esta cidade o Elefante Seravejo,
de propriedade de um sérvio. Viria pela estrada de rodagem de Cacequi
a esta cidade, porque, na estação daquele povoado, se desmantelara
o vagão que o conduzia. Desmantelado o vagão, por ser idoso
e por causa do avultado peso do elefante, o cornaca não quis esperar
a chegada, em Cacequi daqui a um semestre, do material ferroviário,
comprado nos Estados Unidos e tomou a deliberação de fazer
viagem, com o bicho à nossa terra, da forma a que já aludimos.
O Sarajevo é um elefante imponente, pelo seu tamanho. A cabeça
coloca-a, quando entesa o pescoço, que, no diâmetro, lembra
o tronco de um jequetibá, a quatro metros acima do solo. A sua
tromba emula, em comprimento, com a Dr. Fredolino Prunes. Tão volumoso
é o seu ventre que posto junto ao ele o Sr. Vicente Contino, parecerá
uma tetéia. E que patas tem! O golpe que uma delas vibrar no chão,
produzirá, talvez, um terremoto. O belo elefante não nos
visitará mais. Ontem soubemos que só com ele se mostrar,
constituiria um espetáculo agradável, mais agradável
do que muitos espetáculos cinematográficos, principalmente,
quando entre os murros de Jorge Walsh e as palhaçarias de Charles
Chaplin se introduza algaraviar uma arenga, a Sra. D. Eudoxia de Almeida,
não nos recreará com suas habilidades: tocar bombo, equilibrar-se
sobre garrafas, andar unicamente sobre as patas traseiras e cumprimentar
com a cabeça os circunstantes, além de outras.
O sérvio chegou à ponte Borges de Medeiros, na noite de
7 do corrente, mas dali em diante voltou a Cacequi, temeroso de que o
elefante caísse no rio, por um dos muitos rombos que se vêem
no assoalho.
(Desenhar
um elefante em cima de um trem)
As Belas Alegretenses e a Moda
30-Nov-1911 Em
plena fartura a cidade produz além de todos os bens indispensáveis
para viver melhor a sua maior riqueza, as mulheres belas. A mistura bem
equilibrada de portugueses, espanhóis, índios e negros proporcionou
o nascimento de mulheres que se caldearam, adquirindo uma beleza com a
tônica de exigência universal. Elas possuem o charme, o it,
os olhos sedosos, os dentes perolados e uma pele virginal. O gosto exigente,
o gosto pela moda fez nascer a coquete, a melindrosa, que se agitam ao
som do charleston e encantam como deusas de um reino de sonhos.
A moda passa e nada incomoda, pois é apenas a moda, embeleza transforma,
entontece e torna tudo diferente.
E o cronista, de olho, afiado noz diz:
Simplesmente magníficos os vestidos de verão que de Paris
nos chegam. Este ano a "toilette" de verão é o
linon bordado. É, no entanto, necessário explicar como é
esse linon bordado, pois aí está justamente o característico
da moda, todo o seu "chic". São grandes flores bordadas
a lã em cores, sobre o linon, formando barras, quilhas, aventais,
punhos, etc.
As cores mais em vogas para esses borddos são o azul e o cereja.
Esta última cor é muito bonita, alegre, mas o azul é
menos vistoso, mais distinto e é o "dernier mot" da moda.
Ainda há pessoas que preferem nos cálidos dias de estio,
os trajes completamente brancos, e não se lhes pode censurar o
gosto. um vestido todo branco tem sempre um aspecto tão primaveril,
tão correto, que forçosamente é elegante. Entre os
bonitos vestidos brancos que apareceram atualmente, notam-se os de filó
de malhas largas, inteiramente coberto de flores bordadas a seda. Fazem-se
nesse gênero vestidos lindíssimos, de feitio direito, mangas
compridas, sem outra guarnição além do bordado que
cobre toda a fazenda. Há a assinalar o reaparecimento das mangas
compridas em muitos trajes de verão, coisa pouco lógica
é certo, mas que constitui uma novidade.
Uma Carta Para fazer Pensar
22-Jan-1905 O
gaúcho possui em sua simplicidade uma maneira especial de se expressar.
A linguagem é altamente comprometida com o meio, parecendo um novo
código que se tem de descobrir o segredo.
Essa
carta foi publicada na Gazeta de Alegrete a 22 de janeiro de 1905. É
importante por se tratar de uma forma bem característica do nosso
homem do interior. Quem subscrita é M.S. da S. Faria:
Meu
compadre do meu coração e capitão
Recebi
o favor que me trouxe o Chico Boleiro de V. M. e eu e minha dona ficamos
todos muito consternados e passados com a nova morte de sua metade, aquella
alma de anjo de Paraizo, minha estimadíssima comadre.
A Sra. dona poz-se a chorar e os meninos cá em caza fizeram tal
berreiro que por fim eu também chorava como uma creança.
O afilhado isso então não se fala!
Apezar de ter tido muita vontade de ir ao enterro não me foi possível
porque a casaca emprestei há dois ou três dias para um casamesto
do Joaquim Mata Burro e em té hoje não me deu signal della,
sem duvida, porque se meteu no jequipanda das vodas e passa por lá
muito bem e a casa é longe como seis centos diabos. Console-se
porém o meu compadre que tudo no mundo é assim mesmo; logo
o diabo havia de me levar o que V.M. mais estimava e eu também,
porque a Sra. Dona Rosa era mesmo uma Santa Mullher como poucas de seu
sexo, e fique certo que logo que o Mata Burro me trouxer a casaca estou
prompto para qualquer outro enterro, não só a pessoa de
sua família como com muito gosto até mesmo de V.M. que espero
que nunca faltarei.
Fazenda Pau D'Alho, sexta-feira, 20 do corrente mez do presente ano de
1900.
Essa
pérola literária foi transcrita na íntegra para que
se possa avaliar a força da linguagem e a espontaneidade isenta
de temores burgueses.
O Amor Bandido Já Existia
25-Ago-1903 Nem
todas as histórias amorosas carregam a voragem e a beleza de Elizabeth
Browning. Algumas se temperam com "chili", forte pimenta que
faz eclodir fogo em todos os órgãos. Esse é o amor
bandido que mata para poder entregar-se à paixão. É
o abrasivo que limpa, todavia, desmerece a beleza, pelo infrene sentido
de querer, onde a razão desaparece e fica somente a sensação
de posse momentânea.
Josefina, uma boa rapariga, criada na casa do Dr. João Blesmann,
um dia destes, cismou que a casa transformara-se em gaiola, ela, em pássaro
e, nessa persuasão, achando a portinhola mal fechada, bateu a linda
plumagem na companhia de um calça vermelhas, entoar a Rufus...
quartel. O senhor Intendente, porém, não achou graça
no idílio, e caçou o pássaro e a pássara,
entregando-os depois ao Juiz Distrital que para sempre os engaiolou.
Outra pássara, outra Josefina, mulatinha moça e bem parecida,
igualmente levantou o vôo do ninho materno, indo cantar endechas
ternas nas plagas uruguaianenses. O feliz mortal que a conduzia foi um
cabo do 30º batalhão da infantaria. Felizardões os
taes calças encarnadas.
Nós
Também Temos o Mundo Fabuloso do Pleistoceno
1905 No
ano de 1905, foram encontrados no leito dos Rios Ibucuí e Capivari,
durante o período de seca, vários ossos de animais desconhecidos,
de tamanho extraordinário. Um desses ossos é um mandíbula,
com dentes ainda incrustados e foi achado nos areais do Ibicuí.
Outro pedaço é uma canela ou fêmur, medindo 0,70m
de comprimento e 0,60m de circunferência na cabeça. Este
foi achado no Capivari. Os outros ossos representam costelas de mais de
1,50m de comprimentos e também dentes avulsos. Todos estes ossos
acham-se inteiramente petrificados, mas conservam perfeitamente a forma
e a aparência óssea.
Exatamente 100 anos depois foram encontrados na Fazenda de Thier Witt,
em março de 2005 e em março de 2006, várias ossadas,
quase na foz do Rio Ibirapuitã perto do seu entroncamento com o
Rio Ibicuí.
Do Período do Pleistoceno, existe a megafauna do pampa, onde os
fósseis são restos de Glyptodonte (tatu gigante), Lestodonte,
Toxodonte (preguiça gigante), Mastodonte (elefante), Cervídeos
(gadelhas de cervos)
Esse material de mais de 100 peças, se encontra no Museu de História
Natural que pertence ao Centro de Pesquisa e Documentação
de Alegrete - CEPAL, sob a responsabilidade da Dra. Laura Rodrigues de
Freitas Faraco.
Cinematógrafo Condenado O
cinema foi uma grande invenção de 1895, que levou as platéias
do mundo inteiro ao delírio. O homem era capaz de reproduzir a
sua imagem com movimento, adaptando a isso a arte de representação.
A partir desse momento estava consagrada como uma das maiores diversões
públicas.
A
19 de Março de 1908, foi publicado na Gazeta de Alegrete
o seguinte despacho: "Telegramas publicados pela imprensa dizem que,
no Rio de Janeiro, acabam de ser proibidas terminantemente as exibições
cinematográficas. Deu causa a isso estar verificando que o cinematógrafo
(cinema) é altamente prejudicial à saúde, por afetar
extraordinariamente os órgãos visuais e o sistema nervoso,
o que tem produzido certas enfermidades..."
Mesmo com alertas médicos e prevenções dos mais conservadores,
cada vez mais as platéias se empolgavam com recente invenção.
No ano de 1911 apareceu no salão do Teatro São
Luiz, o primeiro cinema da cidade, que tomou o nome de Cinema Rio Branco,
funcionando paralelo aos espetáculos do teatro. O cinema foi um
incentivo à música, porque as empresas que o exploravam,
a exemplo do que se fazia em outras partes, necessitavam de profissionais
para animar os espetáculos, compromisso de ordem local. Por ser
um espetáculo mudo foi necessário manter uma orquestra para
tocar durante as sessões. Contratavam-se músicos de fora,
outros passavam por aqui e muitos acorriam a Alegrete para se promoverem
como artistas, chegando a residirem definitivamente na cidade.
O teatro e o cinema fizeram parte do cotidiano da comunidade. Nessa época,
a moda, a música e a linguagem corporal, vindas através
das telas modificaram o proceder de todos.
Em Novembro de 1929, aconteceu a famosa briga entre o cinema mudo e o
falante. Diz Adolpho Zukor: "A importância dos filmes mudos
só tenderá a aumentar; continuaremos a empenhar-nos por
fazer os nossos filmes mudos cada vez mais interessantes e perfeitos".
Diz Jesse L. Lasky: "É uma insensatez dizer que a produção
muda está destina a desaparecer. Ao contrário, o filme mudo
será sempre o alicerce-mestre para a segurança de nossa
indústria". Diz Emil Shauer e S. R. Kent: "Quando o filme
falado perder o atrativo da novidade que tem agora, o publico exigirá
nele o mesmo que exige no filme mudo: a qualidade".
A 15 de Novembro de 1929, surgiu o primeiro filme falado
no mundo.
Em Alegrete a novidade chegou no início de 1930.
Alcançou grande sucesso a apresentação no Cine-Teatro
Ipiranga. Em comemoração aos 40 anos da Proclamação
da República foi apresentado o filme Segredos dos Cinco Mascarados,
o no outro dia, foram levados os filmes Evas de Hoje e a Floresta Ardente,
com Renée Adorée e Antônio Moreno.
Em
Alegrete já existiram as seguintes casas de espetáculo:
Cinema Rio Branco (1911)
Cinema do Sport Club Feminino (01-Fev-1916)
Cine Teatro 13 de Maio (08-Out-1916)
Cimema Ipiranga (22-Jan-1920)
Cinema Coliseu (20-Jun-1926)
Cine Teatro América (1943)
Cinema Glória (1948)
Cinema Continente (1957)
Cinema ao Ar Livre Bar Gaúcho (1960)
Neocine (27-Jan-2004)
Adágios
Populares
04-Set-1908 A
sabedoria popular muitas vezes substitui a verdade que a Filosofia tenta
modelar em palavras e idéias mais rebuscadas. Na fronteira do Rio
Grande do Sul, desde o século XIX, passavam de boca em boca vários
adágios, tendo alguns o seu uso até hoje:
- Praga de urubu não mata cavalo.
- A formiga cria asas para se perder.
- O sagüi é que morre de caretas.
- Soldado velho não se aperta.
- Papagaio come milho, periquito leva a fama.
- Roceiro na cidade é força de negócio.
- Não se apanha o ratão, apertando o rabo do gato.
- Capenga não forma.
- Encomenda sem dinheiro fica no tinteiro.
- A que à tarde come milho, é besta de pai e filho.
- O caranguejo perdeu a cabeça por fazer cortesias.
- O melhor burro precisa de duas esporas.
- Quem muito corre, cai no caminho.
- Cão não rejeita osso.
- Jolapa, quando não mata, rapa.
- Mais vale a quem Deus ajuda, do que um cedo madruga.
- Macaco velho não mete a mão em cumbuca.
- Por cima tanta farofa, por dentro molambo só.
- Quem dá papa a menino, lambe os dedos.
- Quem meu filho beija, minha boca adoça.
- A galinha da minha vizinha é mais gorda do que a minha.
- Quem não tem cão, caça com gato.
- Quem, com porcos se mistura, farelo come.
- Gato ruivo do que usa disto cuida.
- Lé com lé, cré com cré.
- Em falta de farinha, crueira serve.
- Tão má como a carne de pá.
- Não se apanham moscas com vinagre.
- Não há sapo sem sua sapa.
- Pitangueira não dá mangas.
- Tirar a sardinha da brasa com a mão do gato.
A
Significação do Nosso Regionalismo
Out-1925 O
autor Carlos Dante expressa sua opinião de uma maneira bem embasada,
não sofrendo a influência de um regionalismo viciado e obrigatório
que alguns tentam esteriotipar, para que toda a cultura seja observada
apenas sob um ângulo de heroicidade, muitas vezes sem base histórica.
Texto
de Carlos Dante de Morais, escrito em Outubro de 1925.
Sob
um critério sociológico, divide Zum Felde a literatura uruguaia
em nacional e exótica. Uma inspirada na campanha e a outra no mero
produto da cidade culta e europeisada. Frisando que só o território,
as gentes do interior contêm elementos nacionais ou característicos,
não lhes esqueceu de generalizar o fenômeno a toda a América.
Tal estado de coisas, poetas e artistas sempre o entenderam, por instinto,
intuição. Cá no Brasil, toda a bandeira literária
que se dispôs a ir em cata do filão nacional, mais não
fez do que abalar rumo ao sertão, tal como as outras bandeiras
do ouro e da esmeralda... parece-me que nestas arremetidas, de poetas
e artistas se podem assinalar tais fases mais interessantes, mais culminantes.
E por que não dizer ciclos também?
Abre-se a primeira fase, com o Império, ou melhor,
com a Independência. Então, ao apelo romântico do entusiasmo
nativista, é no interior que se vai buscar o índio revel,
transfeito em símbolo da nacionalidade incipiente. Dá-se
a primeira "entrada" literária. Daí por diante,
o Império romântico vai diminuindo, numa submissão
sempre maior do "eu" à verdade exterior.
Quando se descobre o regionalismo (segunda fase), é
que esta última fase venceu por inteiro, o objeto submeteu o sujeito.
No Império centralizador, um sonho simbólico da unidade.
Na República descentralizadora, o fragmentário vivo da verdade
local.
Vem de ontem a terceira fase que assinalei. E dizendo
ontem, não meto aí mais de dois ou três anos, no máximo.
Recente como é, tem essa fase muita coisa que evoca a primeira.
Os poetas, que levantam o pendão da brasilidade, reatam, com maior
ousadia, o anseio nativista do ciclo romântico. Mal tolerando o
regionalismo, a rajada individualista os toca para as alturas - e daí,
ébrios da visão das distâncias, da visão do
conjunto, procuram ver se descobrem a euritmia, o traço rítmico
da vasta unidade.
O ato inicial obedece ainda à intuição de que falei
- eles palmilham a mesma via do interior. Tropicalizam-se de começo.
Com eles só é que a poesia entra a sentir o cheiro e o sabor,
a aspereza ou a maciez dos frutos silvestres, das árvores, da terra
úmida. A natureza deixou de ser uma categoria sentimental, à
moda romântica, ou a uma pura impressão visual, burilada
pelo cérebro, como a dos parnasianos. A volúpia do perfume,
as mãos que apalpam voluptuosas, o sabor, a embriaguez do verde,
a ternura pela terra, não é isso um grande amplexo com a
realidade?
Em
nenhum estado ganhou o regionalismo a extensão que tem no Rio Grande
do Sul. Ele é aqui uma corrente viva e saudável, a carrear
uma grande parte da atividade literária. E prossegue avolumando-se,
e promete espariar-se ainda mais. Eis um fato que prende a atenção,
e merece um lugar á parte na impetuosa atividade literária
de nossos dias.
Não tenta aos escritores a expansão total da personalidade,
nessa tendência moderna de cada um proclamar o que o distingue dos
outros, numa era de criação ousada, de arte inteligente
e cerebral... Preferem o sacrifício de uma parte de si mesmos ao
rincão, ao homem ativo do campo. E sabem confundir-se com este,
para melhor exprimi-lo, derramando a alma na poesia viva da gleba...
Eu não saberei dizer se todos os estranhos entendem o nosso particularismo,
e, menos ainda, se estimam. Direi apenas que a nossa literatura regional
se destaca das outras, não apenas na extensão, mas na significação
também, no sentido. Fora daqui o homem rústico não
é mais do que uma curiosidade, exerce quase a mesma função
de exotismo saboroso aonde os novelistas europeus iam como "tonristes"
buscar no Oriente ou na África, no intuito de excitar o paladar
dos leitores, enfarados de civilização, de urbanismo cotidiano.
Aqui é o contrário. Se os nossos preferem afeiçoar
matéria bárbara, pensamento rude e simplista, o sentir atrevido
do guasca - é que este age como uma força presente, diuturna,
sugestionante. Deixando à parte as heranças do sangue, o
que se exerce é aquela simpatia, verdadeira solidariedade moral,
que o homem urbano manifesta ao homem do campo, um dos atributos que justamente
distinguem, caracterizam o grupo social rio-grandense. Dir-se-ia que avançamos
no caminho da riqueza e da cultura, sem perder de vista o homem espontâneo,
original, modelado pela natureza e por conjeturas fortes.
Donde vem essa atração, esse poder de sugerir, de estar
presente nas almas, numa época dispersiva de cosmopolitismo, em
que as tradições todas desmoronam aos pés dos espíritos
rebeldes? Quem lhe procura as causas, convirá que umas saltam aos
olhos, que outras refogem à visão desprevenida.
Entre as primeiras, se conta logo o encantamento épico que ressai
da figura do lidador gauchesco. Há de custar a esquecê-lo
o povo que o tem no cerne. Tipo essencialmente estético, disse
o sociólogo, acima referido, para qual a vida é um espetáculo
de arte, despida de mofina de interesse, desde que não haja lugar
para o valor, a temeridade, a galhardia e o gesto... Pela quase pureza
ariana, pelo caráter, pelas conjeturas históricas, e pela
consciência altaneira de si mesmo, o gaúcho é o tipo
nobre entre os tipos rurais do Brasil. Já se viu um rústico
que se apelida "monarca", ciente do seu brasão como um
"fidalgo" medieval?
Depois o nosso gauchismo tem por si não acordar aquela idéia
de sangue e de barbaria, de tumulto e pesadelo, que avoeja em torno do
gauchismo platino... Em nosso ambiente político, ao contrário
do Prata, não houve lugar para a ditadura, o predomínio
do caudilho, a absorção da cidade pela campanha, e aquele
entrechocar de partidos sem freio, dilacerando-se até o cansaço,
por um longo meio século.
O Império, traço de união soberbo entre a cultura
e o sertão, entre a cidade e o interior, continuou a fazer do caudilho
rio-grandense o que ele fora, ao tempo da conquista - uma força
assimilada, um elemento admirável de ordem. Era a ação
catalítica da Coroa. E esta, como pesava às vezes! Farrapos
é um protesto temerário e cavalheiresco, que interrompe
a marcha do fenômeno, sem suprimi-lo... A República também
não o subverte. No seio da autonomia estadual, não se constitui
nenhum partido caudilheiro; não fazem mais os pastores que se filiarem
aos partidos gerados num ambiente de cultura, puramente citadino. O dinamismo
político corre, como sempre, da cidade para o campo.
E os traços que distinguem o nosso gaúcho do platino, não
parecem que derivam dessas circunstâncias política especiais,
de centriptismo e subordinação, do que do fator étnico
e das possibilidades geográficas? Sem ter sido nunca uma força
despótica, desencadeada em face da civilização, que
o não queira compreender, não admira que o olhemos sem aquela
desconfiança, a mesma concepção depreciativa, que
o homem de "poncho y facon" tinha até pouco a classe
culta argentina.
Na
crônica brasileira, outros tipos se agitam também fulgurantes
de força e ousadia. Não é mais que lembrar os bandeirantes.
Pertenciam, porém, às páginas empoeiradas de um tempo
recuado. De lá, suas passadas de gigantes ecoam em nosso pensamento,
acordando a imaginação. O gaúcho inda não
chegou a vez de imaginá-lo, ele está aí muito próximo
de nós, e ao coração é que pertence.
Exprimindo-o, identificando-se com ele, não impelem os nossos regionalistas
motivos individuais apenas, de narradores, de poetas. Há, como
vimos, motivos sociais que os irmanam, e daí lhes vêm uma
das melhores parcelas de poesias. Não fazem mais do que obedecer
a sentimentos coletivos que se continuam no tempo. O nosso regionalismo
é um grande lago onde se espelha a tradição.
Fugindo ao individualismo tentador, que desfecha tanta vez na insociabilidade
e na extravagância, eles se inclinam, como rapsodos, a se exprimirem
dentro da raça. Filando de Mistral, cuja poesia é a do sol
e do ar livre, não hesitou o fino, o requintado Rodenbach em afirmar
que é preciso escrever de acordo com da qual se é o rebento...
Porto
dos Aguateiros
1817 Local
do Rio Ibirapuitã, situado na face sul da Praça Getúlio
Vargas que, desde o princípio da história de Alegrete (1817)
serviu de ponto de retirada da água para abastecer o arraial, a
vila até o período de cidade, nos anos de 1900.
Este local foi escolhido, por ser a parte mais baixa do rio que possuía,
em suas margens, pedras metamórficas pretas e uma enseada que proporcionava
a retirada da água que era carregada em pipas e vendida.
Durante o século IX, a água vendida nas ruas em pipas havendo
um comércio vantajoso com isso. As residências mais abonadas,
assim como a Intendência possuíam os seus poços artesianos
que compensavam a falta de água.
O ponto de coleta da água no rio ficava na extremidade sul da Rua
Itapiru (hoje Rua Nossa Senhora do Carmo). Para se defender da poluição
provocada pelas lavadeiras, foi estipulado, mais abaixo, à distância
de 300m, um local com uma placa e um poste, onde ficava um guarda em observação,
chamando-se assim o local de "Pau do Polícia".
Em Janeiro de 1901, anunciando-se com força a estação
das secas, foi aproveitada a baixa do Rio Ibirapuitã, para proceder
a vários melhoramentos no porto de tiragem de água para
o abastecimento da cidade. Foi construída uma muralha de derivação
das águas, partindo obliquamente da margem oposta e obrigando-se
o rio a correr sobre o lado da cidade. Isso deu fez com que a extração
de água pudesse ser feita no próprio seio da correnteza,
sem o inconveniente do antigo remanso aonde convergiam e estacionavam,
em qualquer tempo, os detritos de impurezas das margens a montante. Este
serviço foi terminado em março do mesmo ano.
Quando Alegrete teve a sua água encanada e esgoto, a partir de
1930, o Porto dos Aguateiros tornou-se uma praia para a população
ribeirinha e também para o banho diário dos que não
possuíam banheiro, tanto no inverno, quanto no verão.
Não confundir o local do Porto dos Aguateiros com o atual Parque
Porto dos Aguateiros que recebeu esse nome em homenagem ao antigo local.
Telefonia em Alegrete
29-Nov-1905 A
29 de Novembro de 1905, já estava sendo vendida
a Empresa Telefônica de Alegrete. Contava de 70 aparelhos, funcionando
atualmente 67. Era proprietário da empresa Pérsio Sá
Brito.
A 16 de Setembro de 1908, a Rede Telefônica Alegretense já
se encontrava organizada de modo a poder servir com perfeição
e sem a mínima demora às pessoas que queiram honrá-los
com suas assinaturas. Conforme a notificação da sua diretoria,
"dispunha para isso um grande número de aparelhos novos e
modernos, e boas linhas de comunicação, tendo sido ultimamente
mudados, como todos sabem, os postes da rede, arames, isoladores, etc."
Tanto o comércio como as repartições públicas,
casas particulares e fazendeiros ou criadores do município, que
quisessem se utilizar da empresa telefônica, seriam imediatamente
atendidos, pois que para isso, os proprietários contavam com um
pessoal eletricista idôneo.
Em 1918, a Companhia Telefônica Riograndense vendo-se ameaçada
pela Associação Comercial de Alegrete, de estabelecer uma
rede telefônica, abandonou várias imposições,
algumas vexatórias, que ousara fazer aos assinantes e assumiu o
compromisso de introduzir melhoramentos nos seus serviços.
Introduziu-os já? Não! Os seus aparelhos, que constituíam,
por velhos, como constituem a principal causa do defeito dos seus serviços,
são os mesmos em uso quando ela assumiu o precitado compromisso.
Não chegou a Alegrete um único aparelho novo, depois que
a Companhia Telefônica Rio-grandense afastou a ameaça da
Associação Comercial. De nenhuma parede retirou ela ainda
um dos "venerandos antepassados" dos telefones das outras cidades.
Sem que os longos anos de serviço dos macróbios lhe provoquem
piedade, ainda força estes infelizes a emprestar-lhe a retina e
a boca para despejarmos, nesta, palavras e, por aquela, ouvirmos a voz
que, de larga distância, quer que a ouçamos.
A 07 de Abril de 1943, a Companhia Telefônica Riograndense, cumprindo
com seu vasto plano de ampliação, pretendia estender as
linhas até Uruguaiana. O empreendimento aproveitou o percurso de
linhas anteriormente inauguradas: Cachoeira, Santa Maria, São Gabriel
e Rosário. A linha de Alegrete foi inaugurada nesta data, às
15 horas. A Companhia Telefônica, por intermédio de sua "mesa"
de "longa distância", dava ligação entre
o Palácio Piratini e a Prefeitura Municipal de Alegrete, quando
palestraram por alguns instantes o Dr. Ibanêz Vernei, que representava
o interventor Federal Interino e o Dr. Eurípedes Brasil Milano.
Alegrete e o Seu Progresso
13-Set-1910 Texto
extraído do Jornal A Palavra, de 13 de Setembro de 1910, de autoria
do Redator Julio Ruas.
O
progresso ou o aumento das riquezas de uma nação, estado
ou município, depende da combinação inteligente da
uberdade do solo com o capital e o trabalho. Quando um desses fatores
da riqueza falha, o progresso estaciona.
A terra ou a Natureza, somente, não podem satisfazer as últimas
necessidades do homem civilizado, pois, à medida que o homem avança
em civilização, aumentam-se-lhe as necessidades. Por isso,
mede-se a civilização de um povo pelo desenvolvimento de
suas riquezas.
Os capitais ou fatores que concorrem para o progresso de um povo são
muitos, mas a nomenclatura econômica distingue geralmente em materiais
e incorpóreos ou intelectuais. Vê-se, pois, que, para que
um povo seja rico, progressista e altamente civilizado, é necessário
que não só tenha acumulado os fatores de sua riqueza material
(a moeda, as máquinas, os produtos agrícolas e pecuários,
as fábricas e suas manufaturas) como também tenha armazenado
uma educação sólida, de modo que sua inteligência
torne-se um capital produtivo.
Um povo, depois que chega a alcançar, no caminho do progresso,
um dado grau de civilização, não necessita somente
dos últimos produtos materiais que venham a satisfazer as variadas
exigências físicas, precisa também dos produtos do
intelecto humano, que venham a preencher as necessidades morais. Estas
causas que digo são verdades demonstradas pelas teorias econômicas
que uma inteligência investigadora poderá constatar, passeando
estudiosas miradas sobre o vasto campo do progresso de qualquer povo.
Aqui, neste ligeiro e despretencioso estudo, trataremos do nosso Alegrete
e seu município, procurando fazer um pequeno apanhado de suas riquezas
e progresso.
A
Natureza
O Município de Alegrete compreende um território enorme,
limitando com os municípios de Quaraí, Uruguaiana, Itaqui,
São Francisco de Assis e Rosário do Sul. Nesta vasta extensão
de terras, a Natureza mostrou-se pródiga, dotando o nosso município
de inesgotáveis fontes de riqueza.
Na parte orográfica, temos a Serra do Caverá,
que, depois de atravessar uma parte do município, se dirige rumo
à Coxilha de Santana; para Sudoeste, as vastas coxilhas que se
estendem do Inhanduí ao Ibirocai e que são como que uma
das bases, aonde vêm se apoiar os contrafortes da Coxilha Geral,
continuação da Serra do Mar.
Na parte hidrográfica, Alegrete não é
o menos favorecido da natureza. O Ibirapuitã, cuja origem é
o Município de Livramento, vem engrossando suas águas com
numerosos tributários, banha Alegrete com suas cristalinas águas
e lança-se no Ibicuí. Seus principais afluentes são:
Caverá, Jararaca, Capivari, Inhanduí, etc. O Rio Ibicuí,
rio navegável que banha grande extensão do município,
recebe aqui: Itapevi, Jacaré, Ibirocai, etc.
Além desses rios e arroios, inúmeras restingas e sangas
fortes atravessam o município em todas as direções,
tornando-o farto de água.
Em matas também é rico, possuindo até
mesmo madeiras de lei: angico, guajuvira, tarumã, ipê, etc.
O Clima de Alegrete é temperado, saudável,
favorecido pelas boas condições orográficas e hidrográficas
e abundância de matos.
A constituição geológica é
a melhor possível ao desenvolvimento não só da indústria
agrícola, como a pecuária.
Os minérios, não se pode dizer com certeza, se os tem ou
não, mas, é provável que o município foi tão
favorecido na parte superior, também o seja no subsolo.
Nem todos os municípios do Rio Grande do Sul possuem, como o de
Alegrete estes vantajosos dons da natureza. Municípios há
na região serrana que se prestam admiravelmente à agricultura,
mas que, no entanto, mal serve à criação de gados;
outros da fronteira com o Estado Oriental que se adaptam admiravelmente
à criação de gados e somente, com ingentes trabalhos,
dão um insignificante produto agrícola.
Assim, pois, Alegrete está otimamente favorecido da natureza para
o objeto da produção; clima e disposição geográfica
excelentes, bom solo, favorecendo a agricultura e a pecuária; e
as forças dos diversos agentes naturais.
Os sábios, em seus profundos estudos, têm demonstrado que
a civilização, a inteligência e o progresso dos povos
são, em parte, devidos ao clima, às espécies de produção
do solo, à configuração geográfica e ao assento
dos lugares. E têm razão esses homens da ciência, pois,
se fizermos um pequeno estudo comparado, acharemos que os fenômenos
do progresso e da civilização dos povos firmam, em parte,
sua origem nas causas acima mencionadas.
A Inglaterra, por exemplo, que é um arquipélago situado
no Atlântico, cheio de portos e ancoradouros, é um povo de
navegantes e cujo comércio assombra o mundo. O mesmo pode-se dizer
da França, situada na zona temperada e com portos comercias dando
para o Mediterrâneo e o Atlântico. A última dessas
duas nações tem um gleba mais favorável à
agricultura que a primeira, porém, a Inglaterra possui um subsolo
mais rico em minérios que o da França. Outros países
da Europa são relativamente dotados de vários dons da natureza,
então, também regularmente desenvoltos em civilização.
O mesmo, porém, já não se pode dizer da Rússia,
país de clima glacial, onde o frio é tanto e onde a aspecto
desolador das incultas estepes é tal que seus habitantes estão
como que influenciados pelo meio em que vivem, e constituem um povo cuja
civilização é quase toda refletida das outras nações
européias.
E, assim, poderíamos continuar exemplificando. Ora, se a disposição
dos lugares é a sua configuração geográfica
predispõem às vocações naturais, não
sé entre os povos, como entre os homens; se é verdade que
o clima atua diferentemente no espírito dos povos, aumentando ou
diminuindo a intensidade intelectual, conforme as variadas regiões
do globo, se estas causas atuam, de fato, na força progressiva
dos povos, o Alegrete está fadado a ocupar um lugar proeminente
na civilização do Rio Grande do Sul.
As Lavadeiras do Rio Ibirapuitã
1920 O
Rio Ibirapuitã sempre se cercou de um misto galvanizador das pessoas
em torno do local do município. Ele recorta a terra da cidade ao
meio, promovendo uma diferença entre suas margens como se dividisse
dois mundos.
Foi ele a fonte da vida da nascente vila, servindo de moldura para uma
povoação que se assustava com a presença castelhana.
Com o passar dos anos prestou um grande serviço ao emprestar suas
margens para a retirada da água que sustentava o povoado em seu
progresso.
Depois doou sua força para que se estabelecesse o Passo Real (hoje
Ponte Borges de Medeiros), onde as balsas carregavam a população
de uma margem à outra. Dessa forma foi um meio de entrada de dinheiro
para manter os cofres da Câmara de Vereadores.
Também abrigou em suas margens a população pobre
que fazia de seu leito um belo quintal para pescarias, banhos e lavagem
de roupa.
Os pontos mais concorridos para as lavadeiras se localizavam nas pedras
negras das margens: nos fundos da Santa Casa, no Porto dos Aguateiros
(Povo da Lata) e em torno da Ponte Borges de Medeiros.
Quando se fala em mulheres pobres, desponta a imagem das lavadeiras que
carregavam graciosamente uma trouxa de roupa que equilibravam sobre a
cabeça com se fossem personagens circenses.
Eram avós e mães que sustentavam os filhos e a família
cumprindo a árdua tarefa de lavar e bater as roupas que jamais
poderiam ter.
Permanece bem nítido em nossas mentes a figuras das lavadeiras
pretas e brancas que faziam parte horda de pessoas sem privilégios
ou posses. Essa labuta necessária trouxe uma bela imagem que para
sempre ficará desenhada no folclore popular.
Não eram poetisas, nem artistas, todavia conseguiram colorir o
esverdeado rio com suas aquarelas de roupas que povoavam as margens como
bandeiras soltas em gritaria. Os lençóis brancos atapetavam
as negras pedras como se um manto de lírios fosse encomendado para
tornar suntuoso o cenário das tardes ensolaradas das crianças,
que zumbiam em torno.
Neste momento o rio generoso se tornava a grande sala de aula que educava
e fazia compreender a necessidade de ser melhor, pois as mães que
cuidavam das crianças, conseguiam sociabilizaras as necessidades
e conservar a paciência. Essas mulheres tanto no calor, quanto no
frio se cercavam dos filhos, tendo um olho no trabalho outro na educação.
Ai não acabava o compromisso. Depois de tudo lavado, sob a luz
do lampião em suas casas humildes, vinha o ritual de passar e engomar,
com muita precisão e método.
Ainda hoje, lembramos daquelas vozes em alarido, como se constituíssem
uma praia de pingüins, corajosas mulheres que cantavam:
"Bate-bate esta roupinha
Ela faz melhor
A vida minha".
O Caixão Logra Defuntos uma Saída Inglória
04-Dez-1911 Há
na política atos que só servem para sepultar os governantes.
É o infeliz caso acontecido na Intendência com o Dr. João
Benício, em 1911, no período da gripe espanhola.
Pala
enormidade de mortes, causada pela gripe espanhola, a Intendência
Municipal se viu obrigada a fazer o sepultamento de indigentes. Viu-se
obrigada, porque houve caso de cadáveres ficarem insepultos, durante
três e mais dias, por falta de recursos dos parentes dos mortos,
para o pagamento das despesas com o enterro.
A Intendência gastaria, para enterrar um cadáver, apenas
o valor do caixão, que lhe custava poucos mil réis, e menos
de 2$000 cobrados pelo cocheiro do carro fúnebre fazer o transporte.
O Dr. Benício entendeu que a Intendência, comprando quatro
ou cinco caixões diariamente, ficaria pobre como Job. Daí
o haver criado o caixão "Logra Defuntos". Era um caixão
que servia apenas para a condução dos defuntos até
o Cemitério. Uma vez ali, o defunto era lançado à
cova, e o esquive voltava à cidade.
O Caixão "Logra Defuntos" era muito econômico,
não há o que negar. Um só conduzia dezenas de mortos.
Num só, devido ao seu cumprimento e à sua largura, cabe
um homem, um rapaz, uma criança um gordo ou um magro, um alto ou
um baixo. Mas, era também inegável que a higiene o julgava
pernicioso. Nenhum médico aprovou esse caixão.
A Intendência economizaria alguns tostões, mas propagaria
a gripe espanhola, pois fazia atravessar a cidade, várias vezes
ao dia, um caixão que, há uma semana já, recebera
os corpos das vítimas da influenza espanhola, caixão, portanto,
em cujo pano e em cujos sarrafos havia muitos milhões de bacilos.
Economizava o Dr. João Benício, semiticamente, no que não
deveria economizar e gastava nababescamente no que não deveria
gastar. Infeccionava a cidade com o caixão "Logra Defuntos",
por economia, e, entretanto, ainda há três dias comprava
25 caixas de gasolina, que custavam 1:454$000.
Que serviços presta o caminhão da Intendência?
Insignificantes! Serve apenas para conduzir, para o assustador Hospital
do Regalado, os poucos "pestosos" que aceitavam o tratamento
ali, poucos, embora houvesse muitas centenas de pessoas que deveriam se
tratar em um hospital.
Com o dinheiro empregado em gasolina para o caminhão, o Dr. Benício
compraria dezenas de caixões!
O
Doador das Terras de Alegrete foi Humilhado
14-Jul-1859 Às
vezes o destino prepara uma ironia que mais parece um deboche do que uma
fatalidade. Foi o que aconteceu o com o eminente personagem Antonio
José de Vargas, doador das terras onde se localiza a cidade
de Alegrete. Depois de falecer, sua pessoa sofreu um descaso de tal forma
que foi conduzido ao Cemitério Municipal, em uma simples carretilha,
pois o condutor do carro fúnebre de luxo se encontrava bêbado
no pátio da Cãmara de Vereadores e não teve condições
de dirigir o veículo.
Faleceu
a 14 de Julho 1859, na cidade de Alegrete, recebendo
o Registro n° 1388, no 3° Livro de Óbitos da Capela de
Nossa Senhora Aparecida de Alegrete, folha 08, com mais de 90 anos, tendo
como causa mortis, de moléstia interior.
Foi o doador das terras onde hoje se encontra essa cidade de Alegrete,
conforme a Sentença Civil de Medição, Tombo e Demarcação
da meia légua quadrada, pertencente a esta Vila, passada a favor
da Câmara Municipal, com data de 20 de dezembro de 1850.
Era estancieiro no Inhanduí e no Ibirocai. É sabido que,
desde 1824, Antônio José de Vargas já houvera doado
a parte sua nas referidas terras, entretanto, só em 1850, perante
o Juiz Municipal Joaquim dos Santos Prado Lima, oficialmente estivesse
passando a posse à Câmara da Vila de Alegrete.
A
sesmaria de Antonio Joze de Vargas, tinha a extensão de 3 léguas
de cumprimento por 1 de largura de largura, estendia-se do Arroio Paipasso,
pela margem esquerda do Ibirapuitã, englobando a região
onde hoje se encontra a cidade de Alegrete. É referida em todas
as escrituras de campos situados nessa região.
Nos Pinheiros, se encontra o antigo Cemitério dos Vargas, com
o túmulo do patriarca Antônio José de Vargas.
Junto ao Rio Ibirapuitã, fronteiro à antiga estância
de São João da Estrela, ergue-se o majestoso Cerro dos Vargas
e, junto a este, a antiga residência de Lino Jozé de Vargas.
O Vale da Estrela, dentro da antiga Sesmaria dos Vargas, é uma
das regiões mais bonitas do Município de Alegrete.
Na região de Pinheiros, a Família de Vargas
ainda possui propriedades rurais.
No
dia 15 de Julho de 1859, dia seguinte ao falecimento, em Reunião
da Câmara de Vereadores, foi feita a seguinte denúncia: O
Senhor Vereador Galdino de Freitas Noronha deu ciência
à Câmara que, tendo sido sepulto hoje o cadáver de
Antonio de Vargas, fora este conduzido para o Cemitério em uma
carretilha, por não ser possível obter-se o carro fúnebre,
a vista do que requeria, fosse descontado no ordenado do Empregado culpado
a importância de tal condução. Foi aprovado. A carretilha
era uma carruagem de tração animal, de quatro rodas, fechada,
outrora de largo emprego no Rio Grande do Sul, para transporte de pessoas.
O Senhor Presidente fez o seguinte requerimento. Não tendo o condutor
dos carros funerários, preenchido as obrigações de
que se acha encarregado, a ponto de deixar o carro atirado no pátio
da cocheira como inda hoje observei. Requeiro seja demitido logo que outro
se proponha a ocupar o seu lugar. Devem ser chamando novos concorrentes,
por edital, tendo o Senhor Fiscal, de encontrar uma pessoa que tenha condições
para bem desempenhar esse cargo. Foi aprovado.
Os Três Intendentes em Exercício no Mesmo Dia
08-Jun-1927 Por
uma questão de briga interna partidária, entre Intendente
Dr. Oswaldo Euclides de Souza Aranha e o Vice Patrício Zitto Ribeiro
de Farias (e mesmo que Borges de Medeiros não aceitava o Dr. Patrício
como Intendente), ocorre um fato que só poderia acontecer se fosse,
como foi, com a figura magistral de Oswaldo Aranha que tinha o cacife
político para tal.
No
dia 8 de junho 1927, agravando-se, em Alegrete, a crise
política novamente a ponto de surgirem ameaças à
alteração da ordem pública, retorna de Porto Alegre
o Intendente e Deputado Federal, Oswaldo Aranha (chimango), que não
havia renunciado à Intendência e, nem reassumido a mesma.
Ao tomar conhecimento do agravamento da crise, segundo os seus adversários
da época, estando em Porto Alegre, determina aos seus correligionários
e amigos que lhe preparassem ruidosa recepção, esclarecendo
que desceria do "trem de tabela", na estação "Freitas
Valle", além do Guassu-Boi. Autorizou que, em seu nome, fossem
convidados os Presidentes dos Partidos Federalista e Republicano para
esperá-lo. Avisou que deveria chegar com o objetivo de conseguir
um acordo honroso para todos.
Em Alegrete, os seus correligionários reuniram verdadeiros Piquetes
de Cavalaria desarmados, cujos gaúchos componentes eram antigos
Sub-Intendentes e ex-combatentes dos movimentos armados de 1923, 24 e
25.
Oswaldo chegou pela manhã e se incorporou à caravana que
o aguardava na estação "Freitas Valle",
A caravana sai da Estação Freitas Valle de trem. Antes de
chegar à cidade, desce e se incorpora aos Piquetes de Cavalaria,
que recebem o Intendente e Deputado Federal, e o conduzem até a
frente da Intendência, onde logo se ouve o espocar 20o caixas de
foguetes e aclamações vibrantes ao nome do Intendente, sendo
carregado até a Intendência. Parecia que os chefes de Partidos
não esperavam tão ruidosa manifestação.
Ao responder às aclamações calorosas, em meio a companheiros
e adversários (poucos destes, presentes ao ato), em discurso vibrantemente
pronunciado, ao lado do Dr. Alexandre Lisboa (maragato), Oswaldo declara,
enfaticamente, levantando as mãos: "Com a mão direita
trago a paz e a concórdia à família alegretense,
se assim quiserem os políticos; e com a mão esquerda, se
necessário, farei valer o direito do que estou possuído".
Da
Praça 15 de Novembro, o Intendente e as lideranças se transportaram
para o gabinete do Intendente aonde, após diversos entendimentos,
chegaram a um denominador comum. Um fato curioso, para registro, é
que, neste dia 08 de junho de 1927, se encontravam, respondendo
pela Intendência, três Intendentes:
1° O Sub-Intendente Tristão Ribeiro Neto substituía
o Dr. Oswaldo Aranha, porque este não havia se exonerado;
2° O Vice-Intendente, Dr. Patrício Zitto Ribeiro de
Farias toma o governo, não aceitando que Tristão
Ribeiro Neto substitua Oswaldo Aranha, porque se achava no direito de
assumir, como Vice-Intendente;
3° O Deputado Federal Dr. Oswaldo Aranha assume o
posto, pois não houvera se exonerado.
Neste mesmo dia, exoneram-se o Dr. Oswaldo Aranha e o Dr. Patrício
Zitto. No dia 9 de junho, responde pela Intendência o Sub-Intendente
Tristão Ribeiro Neto. Serenando uma grave crise, Oswaldo Aranha
retira-se e volta para o Rio de Janeiro, com a solução advinda
de sua grandiosa experiência política.
O
Dr. Oswaldo Aranha no ato n° 382, de 8 de junho de 1927, exonera os
Sub-Intendente do 1° Distrito, Artur do Prado Souza. No ato 383, da
mesma data, nomeia para Sub-Intendente do 1° Distrito Tristão
Ribeiro Neto, que interinamente exercerá o cargo de Intendente,
até a nova eleição.
Conforme o Livro de "Atos da Intendência Municipal Alegrete"
- 12 de agosto de 1926 a 20 de Janeiro de 1928 - do ato n° 384, de
8 de junho de 1927 até o ato 432, de 18 de novembro de 1927, o
Sub-Intendente do 1° Distrito Tristão Ribeiro Neto, permanece
nesta função.
Junta
Governativa dos Revolucionários em Alegrete
27-Mar-1923 A
25 de novembro de 1922, em Alegrete, durante o processo eleitoral, na
Mesa receptora de votos, situada no Salão de Eventos da Intendência
Municipal, foram assassinados o chefe político da oposição,
o Coronel Vasco Alves Pereira e seu ordença, negro "Pombo"
e também o Chefe da Guarda Municipal, o Major Marcírio Rodrigues
e seu ordenança, João Pedroso. Os feridos, que depois vieram
a falecer na Santa Casa nessa ocasião, somaram uma dúzia.
No Estado e em Alegrete, o Partido Republicano Rio-grandense era o da
situação e o Partido Federalista, era o da oposição.
Durante e depois da apuração do pleito, aconteceram muitos
e repetidos incidentes políticos, que culminaram com a contestação
da eleição de 25 de novembro de 1922. A oposição
proclamou que houvera fraude eleitoral e abuso de poder.
O Vice-Intendente (chimango), em exercício, Coronel Antônio
Freitas Valle, quando fugiu para Uruguaiana, deixou a Intendência
acéfala, devido à aproximação dos revolucionários
de Honório Lemes. Os revolucionários tomam a Intendência
de Alegrete no dia 27 de março de 1923, estabelecendo
uma Junta Administrativa, integrada pelo Dr. Alexandre da Silva
Lisboa, Presidente, Artur do Prado Souza e Diogo de Assis Brasil.
Esta Junta permaneceu até o dia 08 de junho de 1923,
quando a cidade foi retomada por forças legalistas provenientes
de Cacequi, comandadas pelo Coronel Claudino Nunes Pereira e forças
de Uruguaiana, ambas transportando pelo trem o efetivo de homens e a cavalhada.
A Intendência permaneceu ocupada militarmente pela forças
legalistas do Tenente da Brigada Militar Otelo Frota, até o dia
18 de junho. Neste dia, Honório Lemes retoma a
cidade e a Junta Administrativa entra na Intendência.
As tropas de Honório localizaram-se na Vila Capão do Angico,
evitando permanecer na cidade, embora a maioria do povo fosse maragata.
Honório queria puxar as tropas legalistas para a Serra do Caverá,
pois o local era de seu inteiro conhecimento estratégico.
No dia seguinte, 19 de junho de 1923, acontece o famoso Combate da Ponte
do Rio Ibirapuitã, onde o Rio Grande se expõe em toda sua
ideologia de liberdade.
Com a vitória dos legalistas, reassume a Intendência o chimango,
Coronel Antônio de Freitas Valle, continuando Borges na Presidência
do Estado por mais quatro anos.
A Polêmica Morte de Paulino da Fontoura
03-Fev-l843
Oposicionista
declarado da política de Bento Gonçalves, Antônio
Paulo da Fontoura, Vice-Presidente da República, mais conhecido
por Paulino da Fontoura, constitui-se, depois de 1843, no inspirador
do grupo de republicanos que hostilizava o Presidente. Estremecidos a
princípio, tornam-se depois declarados inimigos os dois ilustres
rio-grandenses.
O
modo como ocorreu essa morte possui várias versões.
A 3 de fevereiro de 1843, quando Paulino se achava na
janela de sua casa em Alegrete, disparam-lhe um tiro de pistola, que o
feriu gravemente. Segundo "A Epopéia Farroupilha" Antônio
Paulo da Fontoura foi alvejado, não na janela de sua casa, mas
na rua, quando saía da residência de certa dama casada. Não
se sabe quais as damas casadas que existiam na casa, pois às vezes
vários casais residiam no mesmo local.
Essa residência localizava-se na Rua Vasco Alves, no local do Edifício
Pequeno Príncipe. Foi seu proprietário, o Tenente
Gaspar Nunes de Miranda (falecido em 21 de Junho de 1865, aos
86 anos), casado com Dona Izabel Custódia de Lima.
Depois, passou ali a morar o Coronel José Nunes de Miranda
(nascido a 09 de outubro de 1830), casado (a 24 de novembro de 1855) com
Dona Luzia Felicidade Cardoso. O casal teve um filho
de nome Olintho Nunes de Miranda que se casou com Dona
Francisca de Souza Nunes.
A
8 de fevereiro de 1843, foi apresentado o projeto o Projeto de
Constituição da República Rio-grandense para ser
submetido à Assembléia organizadora. Eram seus signatários:
José Mariano de Mattos, Domingos José de Almeida, Francisco
de Sá Brito, Serafim dos Anjos e Francisco Ulhôa Cintra.
A 10 de fevereiro 1843, o Presidente da Assembléia propôs
o encerramento do processo de votação do Projeto de Constituição.
No dia 13 de Fevereiro de l843, falece Paulino
da Fontoura em conseqüência de um tétano traumático.
Com essa morte, aumentaram as dissidências entre os farrapos, rompendo
a unidade da cúpula diretiva da República. Assim surgiram
dois grupos distintos:
grupo majoritário - Domingos José de Almeida
e Bento Gonçalves.
grupo minoritário - Vicente da Fontoura (homem
ríspido) e Onofre Pires.
Vicente da Fontoura redigiu o Manifesto da Minoria, onde acusou Bento
Gonçalves de mandante do assassinato de Antônio Paulo da
Fontoura, Vice-presidente da República Rio-grandense. Esta acusação
Vicente reconheceria como falsa em seu diário em 1844.
Onofre Pires se encontrava, politicamente, ao lado de Vicente da Fontoura
e isto ocasiona o Duelo de Sarandi.
O
Duelo e o Final da República
27-Fev-1844 Um
ano depois da morte de Paulino da Fontoura, encontrando-se a República
em completa incompatibilidade, a 27 de fevereiro de 1844, aconteceu o
Duelo entre os primos Bento Gonçalves da Silva e Onofre Pires no
Sarandi em Livramento, que nessa época pertencia ao Município
de Alegrete.
Declarada a luta política entre Onofre e Bento Gonçalves,
este procurou, mais uma vez, entender-se com aquele, fazendo-lhe sentir
que não existiam razões para tão profunda divergência
entre os primos.
Onofre ficou surdo às tentativas conciliatórias de Bento
Gonçalves. Esse chefe procurava demonstrar que Onofre tinha sido
iludido por alguns intrigantes simulados amigos da instituição
republicana, que procuravam perversamente intrigar os chefes políticos,
para assim desmoralizarem o prestígio do Governo do Rio Grande.
Onofre não atendeu. O seu ódio crescia dia-a-dia
Onofre Pires, depois do assassinato de Antônio Paulino não
soube guardar as reservas que até então tinha mantido em
relação a Bento Gonçalves, e começou a injuriá-lo
abertamente.
O
Presidente da República escreveu a Onofre Pires a seguinte carta:
"Havendo chegado ao meu conhecimento, que, em princípios do
corrente mês, em presença de vários indivíduos
do Exército, quando vinha em marcha, Vossa Senhoria avançara
proposições ofensivas à minha honra, e ousara até
chamar-me de ladrão; eu, sufocando os impulsos do meu coração
e aquele brio que em minha longa carreira militar guiara sempre minhas
ações por amor de minha posição, e, mais que
tudo, pela crise em que se acha este país, que o Rei é tão
caro, sufocando, repito, aquele ardor, com que em todos os tempos busquei
o desagravo da minha honra, e corri aos meios legais únicos exeqüíveis
nas presentes circunstâncias; como, porém, sua posição
de deputado o põe acoberto desse meio, e deva eu em tal caso lançar
mão do que me resta como homem que dá esse caráter
a um homem na posição de Vossa Senhoria houvesse de dizer-me
com urgência por escrito, se é verdade ou falso o que a respeito
se me informou. Deixo de fazer a Vossa Senhoria qualquer outra reflexão
a respeito, porque Vossa Senhoria as deve perfeitamente compreender.
Campo, 26 de fevereiro de 1844.
Bento Gonçalves da Silva"
Retrucou-lhe
Onofre Pires:
"Cidadão General Bento Gonçalves da Silva - Ladrão
da fortuna, ladrão da vida, ladrão da honra e ladrão
da liberdade, é o brado ingente que contra vós levanta a
nação rio-grandense ao qual já sabeis, que junto
a minha convicção não pela geral execração,
de que sois credor o que lamento, mas sim pelos documentos justificativos
que eu conservo. Não deveis, pois, senhor general ter dúvida
a conversa que a respeito tive, e da qual vos informou tão prontamente
esse correio tão vosso.. Deixai de afligir-vos por haverdes esgotado
os meios legais em desafronta dessa honra, como dizeis; minha posição
não tolhe que façais a escolha do mais conveniente, para
o que sempre me encontrareis. Fica assim contestada a Vossa carta de ontem.
Campo, 27 de fevereiro de 1844.
O Vosso admirador Onofre Pires de Oliveira Canto"
Na
manhã de 27 de fevereiro de 1844, encontram-se os dois republicanos
no Sarandi, seis léguas distantes de Santana do Livramento e abateram-se
a espada. Onofre recebeu dois ferimentos e deu-se por vencido. Bento Gonçalves
liga-lhe as feridas, e quer conduzi-lo para o acampamento, a 1/4 de légua,
retirado, mas Onofre não se pode manter em pé, por ter repetidas
vertigens, tal era o estado de anemia
em que se achava, em conseqüência da grande perda de sangue
que sofrera. Bento Gonçalves corre então às pressas
para mandar-lhe o cirurgião, dá parte do ocorrido, e é
preso; sendo solto no dia seguinte.
Onofre, aos 45 anos, morre no dia 3 de março de 1844,
em conseqüência de uma gangrena no braço.
Esses fatos levaram ao triste final da República Rio-grandense
juntamente com a não-aprovação do primeiro Projeto
de Constituição do Brasil.
Alexandre, O Pai do Povo
07-Jul-1940 A
09 de Julho de 1870, nasceu Alexandre da Silva Lisboa na cidade de Salvador
na Bahia, na Rua dos Capitães, Bairro da Ajuda, Freguesia da Sé.
Filho de João da Silva Lisboa e Elvira Fernandes Lisboa.
A 10 de setembro de 1894, casou-se em Alegrete com Ester das Santos Lisboa,
filha do General Onofre José Antônio dos Santos e Dona Maria
Cândida Alves dos Santos. O casal teve doze filhos: Eulália,
Raquel, Elvira, Ester, Maria, Madalena, Eloá, Ernani, Neri, José,
Ruy e Euclides.
Formou-se em Medicina, pela Universidade da Bahia em 1890. No dia 20 de
dezembro de 1890, com 20 anos de idade, defende, com brilhantismo, a Tese
de Doutoramento. É aprovado e recebe o título de Doutor
em Medicina. O médico veio clinicar em Cachoeira do Sul, tendo
ingressado no Serviço de Saúde do Exército, no posto
de Tenente. E, 14 de março de 1891, foi nomeado Médico Adjunto
do Hospital Militar de Cachoeira do Sul.
Em 5 de julho de 1892, é transferido para a cidade de Bagé,
onde permaneceu até abril de 1893 e foi designado para servir em
São Gabriel. Em 29 de julho de 1893, foi transferido para servir
no Hospital Militar de Porto Alegre. Em 10 de setembro de 1894, foi residir
em Bagé como Médico-Chefe do Hospital Militar. A 24 de agosto
1899, veio para Alegrete, como Médico-Chefe do Hospital Militar.
Em dezembro de 1902, solicitou licença do Exército para
viajar a Salvador, em visita aos seus familiares. Ao regressar em 1903,
fora transferido para o Estado do Paraná, e com raízes firmadas
em Alegrete, solicitou demissão do Exército, no posto de
Capitão, com 12 anos de serviços relevantes, prestados à
Pátria.
O povo, em reconhecimento aos seus serviços, ao longo de sua vida
profissional, ofereceu-lhe quatro carros, sendo cognominado de Pai do
Povo.
Participou da Revolução de 1923, como chefe maragato e fiel
amigo de Honório Lemes, sendo também respeitado pelos adversários
chimangos.
Foi na casa Leonel Pinto (localizada na Rua dos Andradas, atual Supermercado
Nacional), casado com Eulália Santos Pinto, sua cunhada, que foi
concedido ao brioso Honório o título de General, pelo qual
ficou imortalizado na história rio-grandense.
Revolução de 1930, apresentou-se para o serviço militar,
sendo designado para assumir a direção do Hospital Militar
de Alegrete
Em 1935, foi eleito Prefeito Municipal, pelo Partido Federalista. Em 21
de dezembro de 1938, recebeu o Título de "Cidadão Alegretense".
Morreu a 7 de julho de 1940, sendo seu corpo levado à sepultura
por uma gigantesca multidão que lhe ofereceu o seu último
gesto de retribuição a tão grandes serviços
prestados.
Um Ser de Sacrifícios e de Bondades
08-Nov-1921 Neste
último texto, nos voltamos para a figura espetacular do Dr. Romário
Araújo de Oliveira que conseguiu representar a generosidade de
nosso povo e a presteza da classe médica.
O Dr. Romário, conhecido na Santa Casa por "Vovô ou
Roma", permaneceu por 37 anos em exercício profissional ativo.
Neste ano de 2006, completou 85 anos.
Nasceu
em Alegrete a 08 de novembro de 1921, e morreu em Alegrete
a 04 de agosto de 1988, aos 67 anos. Era um alegretense
metodista, pobre e simples, filho de Conceição Romário
de Oliveira e de Dona Almedorina Araújo de Oliveira. Tinha como
irmãos Oswaldo, Marina, Oriovaldo e Adroaldo, pessoas de elevado
conceito na cidade.
Pelas dificuldades que a família possuía, teve inicialmente
os seus estudos custeados pelo iminente Dr. Antônio Saint Pastous
de Freitas, em Porto Alegre.
Em 1951, formou-se em Medicina, a verdadeira vocação
de sua alma, como se um chamado superior lhe houvesse chegado aos ouvidos.
Ele era bem maior do que um médico. Era um ser voltado exclusivamente
para servir aos necessitados de tal forma que chegava até ao enervante
ponto (para alguns) de nada receber em troca.
Assim, a grandeza se vestiu de simplicidade e deixou todos boquiabertos.
A alma inicia o progresso infinito, quando o homem se torna um ente universal,
e se transforma no eixo de resolução das dificuldades alheias.
O bom médico quanto mais sabe, mais humilde e servidor se torna.
O desiderato da Medicina está impregnado de atos de grandeza, pois
o homem, custodiado pela arrogância e pelo poder, não consegue
divisar a alma extenuada pela dor que se encontra em suas mãos.
A
31 de dezembro de 1955, casou-se com a uruguaianense, católica,
Elza Aymone de Oliveira, dentro do rito protestante,
e, depois, casou novamente dentro do rito católico, com a bênção
do Bispo Diocesano. Casou também no civil, perfazendo três
matrimônios consagrados. Conviveram durante 33 anos em perfeita
harmonia.
Diz
a Santa Casa de Caridade que esse obstetra teria feito 30.000 partos,
mais de 800 por ano, possuindo um total de 2.200 afiliados.
Fazia atendimento ambulatorial aos milhares, assim como cirurgias, e prestava
socorro a quem quer que fosse sendo incapaz de mostrar má vontade.
Atendia a todos os institutos existentes, tendo no INPS o maior número
de pacientes. Mesmo depois de esgotar o número estipulado de pacientes,
continuava a distribuir sua generosidade gratuitamente, pois foi um dos
que mais devolveu às pessoas aquilo que o Estado lhe deu de graça.
Alguns
jocosamente diziam: "Os indigentes são gente do Romário".
Desta forma, a sua presença estourava os nervos dos mais ambiciosos.
Ele vivia sempre com medo de ser acusado de faltas, pois o seu mínimo
deslize era visto como um fatal erro. Mas a compaixão é
o grande sinal da grandeza, pois a caridade e o bem deixam os maus nervosos.
O Dr. Romário era um ser estranho, pois detinha um fanatismo grandioso.
Era Cônsul do Colorado, membro fanático da Escola
de Samba Unidos dos Canudos, PDT e a figura mais popular da cidade.
Parecia uma mistura de justiça com misericórdia, que ascendia
a um padrão que até hoje se desconhece inteiramente.
Se olharmos detidamente, perceberemos que a Santa Casa
foi o palco de suas representações. Cada dia refazia uma
estréia, sendo sempre aureolado por uma performance firme, como
explicava: "temos de matar um leão por dia".
Quando
alguém se projeta, é necessário que seja coadjuvado
por outros. A Dona Elza se constituiu, nesses 33 anos, em uma esposa que
nada reclamou, mesmo nas mais de dez vezes por noite que ia ao Hospital.
Essas duas almas alinhadas se postaram para serem felizes só depois
que os outros estivessem satisfeitos.
Lá pelo ano de 1973, o Dr. Romário foi
ameaçado de morte, mediante dois homens com faca e um com revólver,
quando entrou em uma casa para atender um chamado. Coisa inexplicável,
ter de olhar nos olhos de dois sujeitos que ele houvera feito os seus
partos. Chegou correndo em minha sala e me mostrou as armas que lhes tomara
aos gritos. Assustados os criminosos entregaram. Certamente foi interesse
político, pois na época ele era um ícone popular.
Em 1975, chamou-me, e mostrou a música que desejava
ser lembrado pela esposa (Me dê motivos, de Tim Maia), a qual colocava
todos os dias para que, depois de sua morte, ela tivesse, em sua tristeza
secreta, uma poderosa lembrança de sua pessoa. E eu dizia que não
era necessário, pois a sua glória pessoal era capaz de espantar
todos os desenganos e fazer valer eternamente a sua presença.
Apesar
de toda a sua vida agitada que se diluía no povo, era um homem,
no dizer de Dona Elza, "abnegado, trabalhava com alegria, não
reclamava de dinheiro, possuía muita informação sobre
a atualidade e lia todos os livros que estivessem em voga".
Recebeu
dois carros em sua vida. Um fusca vermelho doado pelo povo e
amigos e uma barata verde-amarela oferecida por uma paciente agradecida.
Dizia Talleyrand, Cardeal de Rhuan, que "a palavra foi dada ao homem
para esconder o que ele pensa". A foto do Dr. Romário permanece
em milhares de casas, Igrejas, Centros Espíritas e bancos. Qual
a sua religião? Seria espírita, pois "sabia antes o
que a gente tinha"? Seria ateu, pois não costumava a professar
um credo? Seria louco, pois não parava um minuto para dizer algo
sério?
Nada respondia, nada reclamava. Quando solicitado, estava sempre presente
sem o mínimo cansaço. Era uma grandeza que se vestia de
humildade, deixando todos boquiabertos e sem explicações.
Mas,
em maio de 1988, foi detectado um câncer fulminante
no pulmão que o matou em três meses.
Inicia, então, o processo de transmigração desta
alma portentosa. Não querendo se desprender da vida, ficava atento
a tudo. Cada dia era uma parte da sua missão que estava se completando.
Foi humilde na dor, nada reclamando, ficando apenas, no fim, o pesar de
ter de abandonar a bela Elza, que soube coadjuvar o grande espetáculo
de sua vida por tantos anos. O seu féretro foi acompanhado por
mais 10.000 pessoas que choraram a imensa perda desse grande amigo.
Vejam vocês! Faz 18 anos que ele partiu e seu túmulo ainda
continua cheio de flores, de velas, de bilhetes, de agradecimentos e de
pedidos e o povo não o esqueceu.
Desta maneira, acertadamente, foi aclamado o "Pai do Povo",
como o outro, Dr. Alexandre Lisboa, que morreu há 61 anos.
Encontramos
este verso em uma placa de homenagem ao seu aniversário de 8 de
novembro de 1984:
"A simplicidade ditou o método,
A generosidade encontrou o recurso
E porque foi a vida o adjetivo maior
Fez de si mesmo o instrumento ideal".
01-Out-1882 - Gazeta de Alegrete - Fundada a Gazeta de
Alegrete pelo Sr. Luiz de Freitas Valle, Barão do Ibirocay. O prédio
sede ficava na Rua Mariz e Barros nº 10, na antiga oficina do Jornal
do Comércio. O Editor era o Dr. Jesuíno Melchiades de Souza,
engenheiro militar e jornalista. "Quando a Gazeta surgiu na publicidade
foi animada do elevado, santo, dignificador
intuito de batalhar, como batalhou rutilantemente, entregue então
aos primorosos talentos de Melchiades de Souza. Sob a proteção
magnânima do Barão do Ibirocay, pela extinção
absoluta da escravatura - nódoa larga na face radiosa da civilização
brasileira, - e batalhou até que a mão frágil de
uma Princesa quebrou cerca de quatrocentos mil grilhões, que a
tanto montava o número de infelizes mártires da torpe ganância."
15-Ago-1883
- Assistência - Sociedade Unione Italiana foi fundada com
o fim de proporcionar o mútuo socorro aos italianos, radicados em
Alegrete. A diretoria ficou assim constituída:
Presidente..............Emilio Ricciardi
Vice-Presidente.........Luigi Chiesa
1° Secretário...........Luigi Ducco
2° Secretário...........Francesco Jiquanetti
1° Tesoureiro...........Pascoale Chiarelli
Vocale:
Giocomo Salla
Nicola Tingel Gioda
Domênico Badlaglia Esta
sociedade, beneficente como o seu nome indica, foi fundada para o mútuo
socorro dos filhos da bela Itália, estabelecidos neste município,
embora conte, em seu seio, vários sócios honorários
e beneméritos de outras nacionalidades, especialmente brasileiros,
o que demonstra a simpatia entre as nações vinculadas no
Rio Grande do Sul, pela memória de José Garibaldi. Foi fundada
a 15b de Agosto de 1883 e anualmente celebra a sua festa a 20 de Setembro.
O Edifício foi levantado em 1907 e inaugurado a 20 de Setembro
de 1907. É uma construção do estilo renascença
(neoclássico), pequena, mas muito elegante. Possui um salão
de 10 metros e extensão, por 6 metros de largura e, ao fundo, dois
compartimentos menores, servindo um de Secretaria e o outro servindo de
depósito de alfaias e outros objetos.
25-Dez-1819
- Brigadeiro Vasco Alves Pereira, Barão de Santana do Livramento
-
Vasco Alves Pereira nasceu em Alegrete a 25 de dezembro de 1819, aos 64
anos. Faleceu a 5 de maio de 1883, em Alegrete. Casou 29 de março
de 1845 com Dona Rosa Izabel Nunes de Miranda filha do Tenente Gaspar Nunes
de Miranda e de Dona Izabel Custódia de Lima. Vasco e Rosa Izabel
tiveram os seguintes filhos: Álvaro, Olintho, Coronel Vasco Alves
Pereira, Amazilde Celina e Hortência.
O nome da Rua Vasco Alves é em homenagem ao Brigadeiro Vasco Alves
Pereira, Barão de Santana do Livramento e não ao seu filho
o Coronel Vasco Alves Pereira que faleceu na Prefeitura na eleição
de 25 de novembro de 1922.
Em 1835, com apenas 16 anos, ingressou na vida militar, ao lado do governo
imperial, onde tomou parte ativa no movimento. Em atenção
aos seus serviços e aos méritos pessoais foi elevado ao posto
de Major. O último feito militar no decênio farroupilha foi
o Combate de Cuaró, no território uruguaio, a 29 de dezembro
de 1844, onde o chefe republicano Bernardino Pinto foi derrotado pelas forças
sob o comando de Vasco Alves.
Fez a campanha de 1851 contra o ditador Rosas, de Buenos Aires.
Em 1858, foi reformado no posto de Tenente-Coronel da Guarda Nacional da
Província do Rio Grande do Sul. Em atendimento a um apelo do General
Caldwel, organizou um corpo de voluntários para a defesa da pátria
comum. Comandou, pouco depois, a 6ª Brigada de Cavalaria que desempenhou
papel relevante no combate de Curuzu.
Em dezembro de 1866 foi nomeado comandante do 4° Corpo de Cavalaria
da Guarda Nacional. Tomou parte nos mais importantes combates, de Potreiro
Ovelha, Itapororó, Angustura, Vileta e outros, dos quais saiu-se
gloriosamente.
Promovido a Coronel, em 1867. Dois anos mais tarde, foi elevado a Brigadeiro
Honorário do Exército. Por seus destacados feitos militares,
recebeu, entre outras distinções a da Comenda da Ordem da
Rosa, a do Oficialato da Ordem Imperial do Cruzeiro e Medalha de Mérito
Militar.
Em 31 de janeiro de 1869 foi promovido ao posto de Brigadeiro e a 5 de março
foi nomeado da 3ª Divisão de Cavalaria e a 19 do mesmo mês
foi-lhe concedida a Medalha de Mérito Militar em atenção
aos serviços prestados na Batalha de Itororó, Avaí,
Lomas Valentinas, Barreiro Grande e Tuiucué, tendo sido nesta ferido
gravemente.
Terminada a guerra, voltou a Alegrete, galardoado, pelo Imperial Decreto
de 18 de maio de 1870, com o título de Barão de Santana do
Livramento. Deste momento em diante, entregou-se a administração
de sua estância de criação de gado. Vasco era um partidário
ardoroso. Em sua política sempre pertenceu ao Partido Liberal, do
qual foi líder de prestígio.
Vasco Alves Pereira faleceu a 5 de maio de 1883, com 64 anos, cercado de
maior respeito de seus patrícios e contemporâneos.
16-Set-1824
- Tenente Gaspar Nunes de Miranda - Data do casamento do Tenente
Gaspar Nunes de Miranda com D.Izabel Custódia de Lima, na Capela
de Alegrete. A Família Nunes de Miranda tem como patriarca o Tenente
Gaspar, filho de João Nunes de Miranda, natural de Portugal, Oficial
de Dragões de Rio Pardo e de Dona Rosa Maria do Nascimento. Nesta
data, o casou, em Alegrete, Dona Izabel Custódia de Lima, filha de
Domingos Pereira de Lima e de Dona Leonarda Maria dos Santos. O Tenente
Gaspar faleceu em Alegrete, a 21 de Junho de 1865, aos 86 anos deixando
mais de 10 filhos. 18-Jul-1832
- Joaquim da Silva Genro - Consta no Livro 01 de Casamento da Capela
de Nossa Senhora da Conceição Aparecida de Alegrete, neste
dia, sob registro 244, folha 57v, o matrimônio de Joaquim
da Silva Dias e de Francisca do Espirito Santo, como assim o transcrevemos:
"Aos dezoito dias do mez de Julho do anno de mil oito centos e trinta
e dois, nesta Capella Curada de Alegrete, depois de Proclamados em tres
dias festivos, e feitas todas as diligencias do estillo, sem impedimento
algum, as quatro {16:00) horas da tarde em minha prezença, e das
Testtemunhas abaixo assignadas se receberão em Matrimonio
Joaquim da Silva Dias, filho legitimo de Manoel Dias, e de Anna
da Silva natural, e baptizado na Freguezia de Santo Ildefonso do Bispado
do Porto, com Francisca do Espirito Santo filha legitima
de Mathias Joze de Vargas, e de Constantina do Espirito Santo já
falescida natural e baptizada na Capella da Incruzilhada, ambos Freguezes
desta Capella, e logo receberão as Bençoens; de que para constar
mandei fazer este assento que assignei com as Testtemunhas: Paroco Joaquim
de Sá Sottomaior, Antonio Luiz Ferráz e Pedro Francisco de
Araújo"
O casal Joaquim da Silva Dias e Francisca do Espirito Santo
teve os seguintes filhos:
01) Anna da Silva Genro
02) José (Juca) da Silva Genro
03) Candido da Silva Genro
04) Constantino da Silva Genro
05) Orlando da Silva Genro
A alteração do sobrenome Silva Dias para
Silva Genro ocorrida após o seu casamento se deu
em virtude de existir, na fazenda de seu sogro Mathias Joze de Vargas,
um outro homem chamado Joaquim. Para distingui-lo, chamaram-no Joaquim,
o Genro.
Após haver falecido Francisca, Joaquim da Silva Genro
(o mesmo Dias), casou com uma outra filha de Mathias Joze de Vargas, de
nome Brígida. Por essa razão, Joaquim da Silva Genro, Brígida
e seus filhos foram os herdeiros da Fortuna de Mathias. Do casamento com
Brígida, não houve filhos. (Cf. Campos Realengos - Raul Ponte,
pág. 664)
Através deste registro, concluímos que a atual Família
Genro teve seu início, com este apelido no município
de Alegrete, pois esta alteração foi justificada oficialmente,
perante a Autoridade Eclesiástica da Capela de Alegrete.
Na obra O Município de Alegrete, de Luiz Araújo Filho, pág.
223 há o seguinte relato: No atual Cerro do Negro,
onde se encontra a Ponte de Pedra, "antigamente, viveu
oculto, durante muitos anos, um escravo fugido, de nome Valentim,
o qual, mais ou menos em 1850, foi capturado por Joaquim da Silva Genro
numa parada de rodeio, na madrugada, quando se recolhia para o cerro. Joaquim
da Silva Genro comprou este escravo, empregando-o numa chácara, onde
viveu ainda por muitos anos. Pessoas que o conheceram, contam que Valentim
andou fugido por mais de dez anos, vivendo da caça e dos poucos legumes
que plantava nas grotas do cerro, no qual havia uma única subida
muito íngreme e difícil. Este fugitivo não cometia
furtos e nas suas excursões noturnas, muitas vezes prestava serviços,
pondo em lugar visível objetos perdidos que encontrava”.
04-Jul-1835
- Dr. Francisco Nunes de Miranda - Em Alegrete, nasce o Dr.Francisco
Nunes de Miranda. Era filho do Tenente Gaspar Nunes de Miranda e D. Izabel
Custódia de Lima.
Cursou a Escola de Engenharia do Rio de Janeiro e formou-se em 1859, aos
23 anos de idade. Foi um cidadão muito considerado e útil,
tanto na vida civil como no exercício de sua profissão, tendo
neste caráter desempenhado várias comissões de confiança.
Em 1867 foi-lhe confiada a direção das obras da ponte de estrada
de rodagem, sobre o Rio Ibirapuitã (Ponte Borges de Medeiros) e mais
tarde, também a construção do cais do Porto de Rio
Grande.
Em 1873, foi eleito Presidente da Câmara Municipal de Alegrete, cargo
que não tomou posse por ter de atender a outras comissões
profissionais fora de sua terra natal. Faleceu a 13 de maio de 1884, aos
43 anos. Era solteiro.
13-Mar-1884 - Dr. Francisco Nunes de Miranda - Faleceu
em Alegrete o engenheiro Dr. Francisco Nunes de Miranda, construtor da Ponte
do Rio Ibirapuitã e do Porto de Rio Grande. O falecido era filho
do Tenente Gaspar Nunes de Miranda e Dona Izabel Custódia de Lima.
14-Ago-1838
- Casa da Câmara de Deputados da República Rio-grandense -
O Governo da República Rio-grandense manda a Câmara de Alegrete
seqüestrar o prédio particular do proprietário Pedro
Rodrigues Tourem, situado na Rua do Arvoredo (hoje Rua dos Andradas) esquina
da Rua do Comércio (hoje, Rua Gaspar Martins, no local do atual Banco
Itaú), destinando-o ao funcionamento da Câmara, Juri e Cadeia
da Vila de Alegrete.
Este prédio estava em começo de construção,
pelo que o Ministro da Fazenda e do Interior, Domingos José de Almeida,
determinou que a Câmara nomeasse uma comissão para orçar
as despesas necessárias para pô-lo em estado de servir ao fim
a que se destinava. O seqüestro teve lugar, segundo a expressão
do Ministro, por se achar em condições de ser incorporado
aos próprios nacionais, em vista da tenacidade do seu proprietário,
entende-se a sua obstinação em não reconhecer a República.
O seqüestro aconteceu a 6 de julho de 1838.
A Câmara Alegretense, que antes funcionava na esquina do Club Casino
(1834-1838), aceitando o prédio, a 14 de agosto de 1838, nomeou uma
comissão composta dos Vereadores João de Araújo Silva,
José Antonio da Silva e procurador Vicente Soares Leiria, para examinar
o prédio e orçar as despesas necessárias à sua
conclusão.
Não há documento autêntico que prove que a Câmara
ocupasse este prédio, sendo mais certo que ela o mantivesse alugado,
porquanto, nos balanços anuais daquela época, se encontra
na folha de arrecadação de uma verba de 20$000, proveniente
do aluguel de um prédio, não havendo apontamento de que ela
tenha possuído outro durante o período revolucionário.
Esta verdade é comprovada pelo fato de que, quatro anos depois do
referido seqüestro e doação, para a instalação
da Câmara, instalou-se, em Alegrete, a 1° de dezembro de 1842,
a Assembléia Legislativa da República Rio-grandense.
A 29 de Março de 1842, o Governo da República Rio-grandense
solicita à Câmara Municipal de Alegrete, o seu prédio,
casa de Pedro Rodrigues Tourem (que lhe foi dado pelo próprio Governo
Republicano), para que nele este Governo se aquartelasse e onde funcionaria,
mais tarde, a Assembléia Nacional Constituinte Republicana.
A 15 de julho de 1842, partiu, de Caçapava, uma leva de carretas
bem equipadas que conduziram armamentos, munição, material
de escritório, documentos, tipografia e jornais, além de contingentes
militares que mantinham a segurança do Palácio de Caçapava.
A 1° de dezembro de 1842, reuniu-se em Alegrete a Assembléia
Constituinte, no prédio mencionado, para a apresentação
e votação do Projeto de Constituição o qual
foi apresentado a 8 de fevereiro de 1843. A Assembléia aí
funcionou até princípios de 1843, quando interrompeu os seus
trabalhos, correndo, a postos de guerra, os seus membros em defesa da causa
republicana.
Após o término da Revolução e dissolução
da República, a Câmara Alegretense retoma seus trabalhos.
03-Abr-1839
- Literatura - Olegário Victor Andrade - Nascia em Alegrete
o maior poeta argentino de todos tempos Olegário Victor Andrade.
Faleceu na Argentina em 30 de outubro de 1882. Filho de Mariano de Andrade
e de Maria M. Burgos de Andrade. Na Europa foi reconhecido como "um
dos mais ilustres poetas que existiu na América". Olegário
saiu de Alegrete, muito jovem, para a Argentina e lá participou da
vida política ativamente, como Castro Alves no Brasil. Depois de
sua morte, Câmara, Senado, e Governo Argentino, compraram de seus
familiares os direitos autorais de sua obra poética, para que toda
a Argentina adquirisse livros a preços populares de seu maior poeta.
É autor do hino "Mi Pátria". Entre os seus muitos
livros, destacamos: "Ninho de Condores", "Atlântida"
e "Prometeu". 1849
- Política - No Município de Alegrete residiam homens
notáveis por suas façanhas militares:
Marechal Bento Manoel Ribeiro;
General David Canabarro;
Coronel Olivério José Ortiz;
Coronel José Antônio Martins;
Tenente-Coronel Jacintho Guedes da Luz
E mais de 100 oficiais que lutaram na Revolução Farroupilha.
05-Dez-1853
- Dr. Demétrio Nunes Ribeiro - Nasceu em Alegrete a 5 de
dezembro de 1853. Era filho do casal Coronel Demétrio José
Machado (que mais tarde adota o nome de Coronel Demetrio José
Ribeiro) e de Dona Carlota Tertuliana Nunes de Miranda.
Teve mais três irmãos: 1° Dr. Adriano Nunes Ribeiro casado
com Blanche Saint Martin Ribeiro; 3° Carlos Nunes Ribeiro casado com
Afra Alves dos Santos e 4ª Mathildes Nunes Ribeiro que morreu solteira.
Mathildes morreu aos 26 anos, apaixonada pelo tio o Dr. Francisco Nunes
de Miranda, engenheiro, solteiro que não acedeu ao seu amor. Ela
suicidou-se, tomando uma xícara de vinagre por dia, chegando à
tísica. Morreu de amor!
Casou com Dona Ana Clara de Sá Brito e Silva, com
quem teve dois filhos de nomes Demétrio e Basileu.
Cursou a Faculdade de Direito. Formado sob a prédica de Apolinário
Porto Alegre, a geração republicana, moços saídos
das academias começaram a pregar, em 1893, abertamente as suas idéias
republicanas. Demétrio recém chegado da Província,
aproveitou o ambiente de pregação de idéias no Rio
de Janeiro, com inteligência foi desenvolvendo a arregimentação
política. Compareceu à chamada convenção de
Fevereiro, em Porto Alegre, da qual foi o mais moço dos membros,
convocada por uma junta de adeptos da democracia. Um ano mais tarde, Demétrio
e outros "obreiros do futuro", como os chamou Carlos von Koseritz,
realizaram um congresso regular a que compareceu uma plêiade de acadêmicos
de extremado valor partidário, notadamente, Júlio de Castilhos,
Assis Brasil, Pereira da Costa, Antão de Faria e outros. Nesta ocasião,
foi iniciada com veemência a campanha pró-republicanização
tanto pela imprensa como pela tribuna. Convocada uma junta secreta, na Estância
da Reserva, propriedade de Júlio de Castilhos, aí se congraçaram
os primeiros republicanos, assentando um plano que lhes permitiria derribar
as instituições monárquicas e estabelecer as que lhes
pareciam mais necessárias e úteis ao futuro da Pátria.
Firmado ele, partia Assis Brasil direto para São Paulo, enquanto
Júlio de Castilhos, com Ernesto Alves, Ramiro Barcelos, Demétrio
Ribeiro e outros, batalhavam pela imprensa e na tribuna em prol do seu ideal
político.
Proclamada a República, Demétrio Ribeiro fez parte da Constituinte
como deputado pelo Rio Grande, tendo como companheiros de bancada, Castilhos,
Ramiro Barcelos e outros, na qualidade de representante do Partido Republicano.
Demétrio foi ministro do primeiro Gabinete Republicano, indicado
por Benjamim Constant, para a pasta da Agricultura e Obras Públicas
(1889), anunciando um vasto programa, no qual inclui a incorporação
do proletariado na sociedade brasileira, segundo princípios positivistas.
Nesse ponto, moveu terrível campanha de oposição ao
Marechal Deodoro da Fonseca, de quem fora companheiro no governo provisório,
como Ministro da Agricultura. Deixou o Ministério da Agricultura
por divergir da política financeira adotada por Rui Barbosa. Foi
um dos agitadores contra o governo do Marechal, depois do golpe de Estado
de 3 de novembro. Pacificado o Rio Grande, voltou ele, mantendo sempre firmes
as suas idéias. Foi deputado constituinte da primeira Constituição
da República, onde defendeu os direitos dos trabalhadores, defendeu
o pagamento das férias (1891). Foi seu o projeto de separação
da Igreja do Estado. Na Constituinte de 1891, chefiou a dissidência
da bancada gaúcha, desligando-se definitivamente de Júlio
de Castilhos.
Residiu alguns anos em Paris para onde fora desiludido da política
de sua pátria e onde perdeu a esposa. 02-Fev-1858
- Dr. João de Barros Cassal - Nesta data, nasceu em Alegrete,
o Dr. João de Barros Cassal e faleceu, em 1903, no exílio
voluntário, na Vila de Nioac em Mato Grosso. Era filho de Innocencio
Manoel Cassal e de Dona Constancia Pereira de Barros.
Fez seus primeiros estudos no Colégio Fernando Gomes, em Porto Alegre.
Concluído os estudos preparatórios, aos 17 anos, seguiu para
o Rio de Janeiro, onde juntamente com Quintino Bocaiúva, trabalhou
na redação de "O País". Um ano mais tarde,
matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo. Formou-se aos
24 anos. Abraçou, em seguida, a vida da imprensa. Como taquígrafo,
trabalhou em Natal, Salvador e Rio de Janeiro. Regressando a Porto Alegre,
iniciou a Advocacia e passou a colaborar na redação da "Federação".
A 16 de novembro de 1889 foi nomeado, interinamente, para o cargo primeiro
Chefe de Polícia do Rio Grande do Sul, na República.
Lutador intimorato, jurista e orador de peso, jornalista de fibra, fez parte
do grupo dos propagandistas da República, grupo dos estudantes gaúchos,
da Academia de Direito de São Paulo. Em 1892 foi aclamado Governador
do Estado do Rio Grande do Sul. Juntamente com Antão de Faria e o
Dr. Demétrio Nunes Ribeiro fundam o jornal "O Rio Grande".
Colaborou, por algum tempo, no jornal "A República". Tomou
parte ativa na Revolução de 1893, em nosso Estado, a bordo
do vapor "Esperança". Participou também doa acontecimentos
que se desenrolaram no Estado do Rio de Janeiro no mesmo ano.
Em 1899, seguiu para a Vila do Triunfo e daí para Alegrete. Por ocasião
da defesa do constituinte Eduardo Mallmann, em meio de um conflito em pleno
júri, viu-se forçado a fugir e ocultar-se. Sendo preso, quando
pretendia retirar-se da cidade, foi requisitado do Rio por ordem do Supremo
Tribunal Federal, onde, em virtude de habeas corpus, impetrado a seu favor
pelo Dr. Pedro Moacyr e o Dr. Alcides Lima, foi posto em liberdade. Depois
ter permanecido algum tempo em Montevidéu e, mais tarde, em Passo
de Los Libres, fixou residência na capital do Paraguai. Ao falecer,
exercia advocacia no Estado do Mato Grosso, indo residir em Nioac, onde
faleceu, sonhando ainda com a liberdade. Suas últimas palavras: "Não
me tolhas a liberdade! Tu sabes que eu sempre pugnei por ela".
1893
- Farmácia Popular - Farmácia fundada no final do
século XIX, pelo farmacêutico Péricles Silveira, situada,
primeiramente, na Praça General Osório (Praça Nova).
Esta farmácia teve um relevante papel tanto na Medicina, quanto na
vida política de Alegrete.
Foi no Laboratório de Exames anexos à Farmácia Popular
que teve lugar a 3ª reunião dos médicos alegretenses,
(somente os brasileiros), aqui residentes.
A 25 de fevereiro de 1915, os médicos Dr. Alpheu Bicca de Medeiros,
Dr. Alexandre da Silva Lisboa, Dr. Juvenal Saldanha, Dr. Severino Sá
Britto, Dr. João Cardozo de Menezes e Dr. Sylla Teixeira da Silva
(por procuração) criam a Liga Médica. Alegrete foi
a primeira cidade no Estado a possuir uma entidade que congraçasse
os médicos.
O Dr. Alexandre Lisboa é eleito o primeiro Presidente e o Dr. Alpheu
Bicca de Medeiros eleito Vice-Presidente. A Liga Médica determinava
que, para exercer o desiderato de médico em Alegrete, era necessário
preencher o seguinte:
1º De agora em diante, só serão recebidos como médicos
na cidade de Alegrete os que apresentarem o seguinte:
* diplomação pelas Faculdades oficiais ou equiparadas do país;
* os médicos estrangeiros, cujos diplomas sejam revalidados nas Faculdades
acima referidas;
* os Professores das Universidades estrangeiras;
* médicos estrangeiros de referido valor científico.
2º Solicitar apoio dos médicos do Estado.
A Liga Médica Alegretense recebe adesões dos médicos
de Porto Alegre, Bagé, Rosário do Sul, Santa Vitória
do Palmar e Santa Maria. A Liga Médica visava sobretudo a zelar pela
integridade moral e científica da profissão médica,
combatendo os excessos da liberdade profissional.
A 1° de Setembro de 1926, reunidos os médicos Dr. Alexandre da
Silva Lisboa, Dr. Antonio Saint Pastous de Freitas, Dr. Amarilio Macedo,
Dr. Ivo Correa Meyer, Dr. Salathiel dos Santos, Dr. Juvenal dos Santos,
Dr. Miguel Olivé Leite. Dr. Olintho Flores, Dr. Fonseca Júnior,
Dr. Celestino de Moura Prunes e Dr. Mário de Assis Brasil, reuniram-se
na Sala da Biblioteca da Farmácia Popular, para a fundação
de uma Sociedade de Medicina com a finalidade de cuidar do aperfeiçoamento
dos médicos, através de estudos de assuntos de técnica
profissional e do interesse da classe. Neste período, a Farmácia
Popular já se encontrava situada na Rua Vasco Alves, esquina da Rua
General Sampaio. Alegrete foi a primeira cidade do Estado a possuir uma
Sociedade de Medicina, antes mesmo de Porto Alegre.
A importância política da Farmácia Popular reside em
seu proprietário haver participado da Revolução de
1923, sendo o local um dos redutos de revolucionários maragatos,
conservando em um compartimento secreto um verdadeiro arsenal e também
um arquivo pertencente aos Corpos revolucionários. Seu serviço
durante a revolução foi de um pronto-socorro e sala de cirurgia.
Não podemos esquecer que esta Farmácia, além de vender
medicamentos, os aviava, trabalhando juntamente com os médicos que
ali mesmo faziam seus atendimentos com seus horários marcados. No
ambulatório, eram feitas cirurgias de vários portes.
20-Out-1895
- - Chico Pistão - Faleceu Francisco Antônio, mais
conhecido por Chico Pistão. Servidor da Pátria primeiro -
a qual deu o melhor de sua existência - depois músico aprimorado,
compunha sofrivelmente e executava ao pistão - seu instrumento favorito
- com gosto e maestria. Acabrunhado pelos anos, velho e pobre, os últimos
dias foram bem amargurados. Esmolava para viver! No entanto, teve dias felizes,
foi popular, teve sua época. Quem o conheceu há 30 anos, não
diria que era o mesmo que hoje, de sacola às costas, pedia, de porta
em porta, uma esmola pelo amor de Deus. 02-Mai-1902
– Tenente Coronel Severino Antônio da Cunha Pacheco -
Faleceu o Coronel Severino Antônio da Cunha Pacheco que durante quatro
anos dirigiu os destinos da cidade de Alegrete como o primeiro Intendente
da nova República. Não foi votado, e sim nomeado (24 de novembro
de 1892) para que a sociedade pudesse votar no candidato de sua escolha.
Sua posse foi a 10 de dezembro de 1892, exercendo seu mandato até
o dia 31 de dezembro de 1896. Faleceu às 05 horas da tarde, cedendo
à fatal moléstia, aos 72 anos. O finado, homem de trato fidalgo
e finamente educado, foi casado na mais importante família de Quaraí,
a qual descendia em linha direta do Marechal Bento Manoel Ribeiro de Almeida.
Ocupou importantes cargos de nomeação e de eleição,
entre os quais o de primeiro Presidente da Câmara Municipal da Vila
de Quaraí, cabendo-lhe a honra da instalação do Município.
Viúvo há muitos anos, depois de golpeado pela adversa fortuna,
o ilustre finado, condenou-se ao retarimento, vivendo modestamente ao lado
das filhas. No último quartel da vida ocupou o lugar de Intendente
de Alegrete e, no período revolucionário, fez parte das falanges
da legalidade, como oficial do Estado-maior da coluna do General Hipólito
Ribeiro. 23-Ago-1903
- Dentista - Dr. Getulio Romero. Diplomado pela Faculdade
de Medicina e Farmácia da Capital do Estado. Rua dos Andradas, em
frente à Incendiaria. Especialidade em ourificações,
coroas de ouro e adaptação de peças protéticas
completas ou seccionais a Bridh Work (dentadura sem chapa, sistema fixo).
Restauração a ouro e platina inoxidável. Colocação
de pivôs pelo sistema dos professores Peesós e E. A. Lincoln.
Curativo de fistulas. quistos e todas as moléstias da boca. Extrações
de dentes pelo processo do professor Reclus. Todo o trabalho é solido
e garantido. Atende a chamados em domicílios a qualquer hora do dia
e da noite. Grátis aos pobres e obturação a cimento.
Consultas das 8 às 11 da manhã e das 2 às 4 da tarde.
23-Ago-1903
- Comércio - Hotel Itália de José Buccaro
- Neste estabelecimento encontra-se comida a qualquer hora do dia, e até
ás 10 horas da noite. Todos os domingos haverá Talharim. Apronta-se
qualquer extraordinário A la minuta e mesmo banquetes. Comida Italiana
e Brasileira. Bons cômodos para hóspedes. Asseio e presteza.
Preços módicos. Bons fiambres, Conservas, Café, Bebidas.
23-Ago-1903
- Ferraria de Antonio Lora - de construção e concertos
de carros tílburis, carroças, carretas, fogões econômicos
de ferro, grades, lisos e floreados e qualquer outro serviço concernente
no ramo. Garante-se a perfeição dos trabalhos. Rua José
Bonifácio
23-Ago-1903 - Cerveja Nacional - de Gustavo Guelzer - Esta bem
montada fabrica, estabelecida a Rua Marquês de Alegrete, dispõe
sempre de excelente cerveja branca, preta, dupla e bem assim magnifica Gazoza.
Tudo garantido. Preços a dinheiro. 25-Ago-1903
- Estação Viação Férrea -
Como é sabido, o Governo Federal havia contratado a Companhia Brasil
Great Southern, para a construção da Estrada de Ferro entre
as cidades de Alegrete e Uruguaiana, e essa funcionava em viagem trisemanal,
quando o mesmo governo empreendeu a construção desde Alegrete
até Cacequi, pelo 2º Batalhão de Engenheiros, sob o
comando do Coronel Bento Manoel Ribeiro Carneiro Monteiro. Já esse
longo trecho ia a mais de meio, quando o Governo, em novo contrato com
a Companhia Belga Chemins de Fer Auxiliares du Bresil, resolveu encampar
a e Estrada de Uruguaiana a Alegrete, e entregar a ambas à Companhia
Belga, arrendatária da linha da margem de Taquari até Cacequi.
Essa companhia acabou o que restava fazer na Estrada de Alegrete a Cacequi,
adquiriu, ainda, por arredamento, as estradas do Rio Grande a Bagé
e, desta, até Cacequi, passando por São Gabriel e finalmente
a Estrada de Ferro de Porto Alegre a Taquara do Mundo Novo, ficando com
o domínio útil de toda a Viação Férrea
Rio-grandense que pssou a ser seu título.
Com isso, muito lucrou Alegrete, porque, com uma viagem de dois ou três
dias, estará em comunicação com a a capital, com
Rio Grande e pontos intermediários, gastando, portanto, uma quinta
parte do tempo, que, antes, custava uma viagem a cavalo para quaisquer
pontos terminais. Não menos vantajoso se tornou para o comércio,
transporte das mercaDorias, apesar das taxas elevadas da Estrada de Ferro.
As estações desta estrada, a partir de Alegrete, são:
Palma, Passo Novo, Tigre, Jacaquá, Itapevi, Saican e Cacequi (local
de almoço), Umbu, São Lucas, São Pedro, Canabarro
e Santa Maria, de onde haverá trem só no dia seguinte para
Porto Alegre.
(Cf. Hemetério José Velloso da Silveira, As Missões
Orientais e seus Antigos Domínios, pág. 339, Edição,
1909)
25-Ago-1903
- Estação Estrada de Ferro - Este prédio
federal foi construído em 1903, pelo 2º Batalhão de
Engenharia, sob o comando do Tenente Coronel Dr. Bento Manoel Ribeiro
Carneiro Monteiro. Neste dia foi inaugurado. Depois de aberto o tráfego
entre Cacequi e Uruguaiana, tem se verificado ser a Estação
acanhada para o movimento extraordinário, tanto comercial, como
de passageiros, que tem se desenvolvido em Alegrete. Devido a isso, a
nova administração mandou construir mais um dependência
contígua, para depósito de cargas, e alterou a tabela de
partida dos trens, de duas vezes por semana, para três, nas segundas,
quartas e sextas-feiras e saem dos dias imediatos. Em 1908, os trens saem,
para Uruguaiana às seis horas e chegam ás seis horas da
tarde e para Cacequi saem às 7 horas e chegam à uma da tarde.
25-Ago-1903
- Estação Viação Férrea -
Neste dia, às 10:00 horas da manhã, formaram em parada,
na Praça do Club Emancipador, o 2º Batalhão de Engenharia
e 30º Batalhão de Infantaria. Os dois corpos receberão
a voz de comando de Comando do Major Dr. Setembrino de Carvalho. Depois
de executarem diversas manobras os batalhões desfilarão
em continência em frente do Sr. Tenente-Coronel Olegário
Sampaio. A Brigada, depois, percorreu em passeio militar algumas ruas
da cidade, recolhendo-se em seguida a seus quartéis. Os praças
do 2º Batalhão tiveram, nesse dia, jantar especial, ofericido
pelos oficiais do mesmo.
Às 02:00 da tarde, chegará a esta cidade o trem de Uruguaiana,
vindo pelo desvio construído pelos ilustres engenheiros militares.
A chegada á Estação, recentemente terminada e que
se achará nessa ocasião vistosamente ornamentada - os distintos
oficiais oferecerão às pessoas gradas que ali se acharem,
uma taça de champagne, solenizando desse modo a faustosa data em
que, pela primeira vez, o silvo da locomotiva anunciou aos habitantes
de Alegrete que uma nova era de progresso e de adiantamento abrir-se-ia
para eles. Durante a festa, tocarão na estação três
bandas de música.
A Comissão dos festejos, em boletim que distribuídos previamente,
convidou as associações locais e o povo em geral para se
reunirem no edifício da Intendência, a fim de, incorporadas,
irem esperar, na estação, a chegada do trem. Foram organizadas
as seguintes commissões:
De festejos:
Manoel de Freitas Valle Filho
João Benício da Silva
Manoel Julio Ruas
Cândido Rosário da Silva
João Galant
João Niderauer
De recepção
Manoel de Freitas Valle Filho
João Benício da Silva
Antônio de Oliveira Macedo
Luiz Ignácio Jacques
João Nideraues
Jorge Magno Falcão
Diretoria do Baile:
Candido Mallmann
Manoel Fabriciano da Silva
João Gallant
Amadeu Bicca de Medeiros
Asterio dos Santos Sobrinho
Osório Marques
Francisco de Paula Ferreira Netto
De Ornamentos:
José da Silva Leal
Artidoro de Almeida
Fernando J. de Lima
Antônio Fernandes
Octavio Moura Doria
Eliseu Moreira Filho
Orador: João Benício da Silva
A
Redação da Gazeta agradece agradece a delicadeza do convite
que recebeu do Major Dr. Setembrino de Carvalho, digno comandante do 2º
Batalhão de Engenharia.
16-Abr-1905
- Indústria Pastoril - Para incentivar os pioneiros da melhoria
dos rebanhos, a Gazeta publicava: "Anteontem (14 de abril), foi exposta
na Várzea, proximidades na Ponte do Rio Ibirapuitã, um magnífico
lote de touros Durhan e outro nas mesmas condições, de vaquilhonas
Hereford, produtos esses obtidos, por cruzamento, no estabelecimento do
Capivary, pertencente ao adiantado fazendeiro Major Manoel Bicca de Freitas.
Esse esplêndidos produtos obtidos por aquele inteligente fazendeiro,
que bem tem compreendido as vantagens e a necessidade que há com
o aperfeiçoamento da nossa principal indústria, que é
a pecuária , foram contemplados, no referido local, por grande número
de pessoas-industrialistas, comerciantes, fazendeiros e outros, De muitos
o Major Bicca de Freitas recebeu francos elogios. É de se lamentar
que muitos criadores não aproveitassem a oportunidade, comprando,
por módico preço, alguns dos reprodutores e vaquilhonas, a
fim de melhorarem os gados crioulos que possuem. O trabalho de Manoel Bicca
de Freitas é apontado como exemplo a seguir.... congratulamo-nos
com o Município de Alegrete pela demonstração do progresso
da indústria pastoril. Francamente evidenciado com os produtos do
Estabelecimento do Capivary. Um fazendeiro deste município quis comprar
do Sr. Manoel Bicca de Freitas, à razão de 12 pesos de ouro
por cabeça todo o lote de touros Durhan. Essa oferta foi recusada.
Os seus filhos, Dr. Antônio Saint Pastou de Freitas honrou suas experiências
e os produtos do Posto Velho às exposições-feiras até
de cunho internacional. Também o filho Ignácio Bica de Freitas
conquistou lauréis em competições internacionais com
os produtos da renomada Cabanha São Marcos que foi uma honrosa presença
alegretense nas mais exigentes exposições. 30-Jul-1906
- Biografia - Mário Quintana - Nasce, em Alegrete, Mário
Miranda Quintana, filho de Celso de Oliveira Quintana e Virgínia
Miranda Quintana. Viveu sua infância em Alegrete, transferindo-se
depois para Porto Alegre. Foi um dos maiores poetas da literatura latino-americana.
Autor laureado, ao longo de sua vida recebeu inúmeras homenagens
duranate a sua carreira e foi sempre alvo de reconhecimento tanto de porto-alegrenses,
quanto de alegretenses. Para que a Academia Brasileira de Letras reconhecesse
seu mérito foi criado o Grupo Quintanares, que muito se empenhou,
entretanto nada conseguiu. Faleceu em Porto Alegre a 5 de maio de 1994.
Sua obra:
1940 - Rua dos Cataventos
1946 - Canções
1948 - O Batalhão da Letras
1948 - Sapato Florido
1950 - Aprendiz de Feiticeiro
1951 - Espelho Mágico
1953 - Inéditos e Esparsos
1962 - Poesias
1966 - Antologia Poética
1968 - Pé de Pilão
1973 - Caderno H
1976 - Apontamentos de História Sobrenatural
1977 - A Vaca e o Hipogrifo
1978 - Prosa e Verso
1979 - Na Volta da Esquina
1980 - Esconderijos do Tempo
1981 - Nova Antologia Poética
1983 - Lili Inventa o Mundo
1984 - Nariz de Vidro
1984 - O Sapo Amarelo
1986 - O Baú de Espantos
1986 - 80 anos de Poesia
1987 - Da Preguiça Como Método de Trabalho
1987 - Preparativos de Viagem
1988 - Porta Giratória
1989 - A Cor do Invisível
1990 - Velório Sem Defunto
1990 - Diário Poético
1991 - Antologia Poética
1992 - Antologia de Mário Quintana 22-Ago-1907
- Carta Histórica - Está em poder do Sr. Francisco
Accurso, comerciante no Rio Grande, um precioso autógrafo de Jose
Garibaldi. Trata-se de uma carta intima do herói dos dois mundos,
escrita à valorosa dama que se tornou depois sua esposa, Ana Joaquina
da Silva Santos, residente então em Arroio Grande. Cópia da
missiva: "Estmª. Serª. Agradeço da consideração
que V. S. me concede, tenho um sentimento inexprimível de não
poder passar por cima dos jurirãs, quando fora por mais alto ainda,
seria sempre com um verdadeiro prazer que voltaria a ver aquele lugar querido,
donde o meu pensamento não sairá nunca, e as encantadoras
pessoas que os formoseiam. Sim! Amável D. Anna, eu protesto a V.S
que talvez, livre, dos cuidados, em que me acho envolvido, eu possa algum
dia de sossego, em um lugar de minha simpatia, as margine do Arroio-grande,
terão justa preferência, quando mesmo V.S. me destreinasse
o telhado para morada. Recebi os sapatos. Não sei nada de Brigida.
Os officiais todos lhe beijão a mão, e eu sou todo o que se
pode ser de V.S. e de suas amáveis companheiras.
Est° - 3 de Fevereiro - 4 José Garibaldi." 02-Mai-1912
- Crime Político - No Cinema Teatro Rio Branco foi assassinado
o Sub-Intendente da 1º distrito, o Capitão Joaquim Domingues
Vieira, pelo jornalista Manoel Julio Ruas, tornando-se
o auxílio da Polícia Judiciária, motivo pelo qual o
Subchefe de Polícia desta região destacou para aqui 07 praças
da Brigada Militar. Retirado esse auxílio que durou apenas 25 dias,
tornou-se necessário, para atender o policiamento como as circunstâncias
exigiam, o aumento da guarda. O efetivo passou a 62 praças.
A 20 de dezembro de 1919, o Dr. Tito Marengo escreve um opúsculo
que foi distribuído à população, chamado "Um
caso de Graphomania Psychopathica", para rebater as acusações
ferrenhas dirigidas pelo "famigerado" Júlio Ruas, que emitira
através do Jornal "A Palavra" onde era diretor. Conforme
o Dr. Tito Marengo esclarece: Em certa noite (02 de maio de 1912), terrível
noite, a sociedade alegretense, reunida no Teatro 13 de Maio, assistia ao
espetáculo, sendo assim testemunha involuntária do drama,
um infeliz funcionário caia no átrio, assassinado covardemente,
com dois tiros pelas costas. Como Médico municipal, revisei o cadáver
e posso garantir este último e agravante detalhe, que ficou constatado
no auto do corpo de delito. A sanguinolenta coorte autora do crime, constituída
pelo dito redator de "A Palavra", cúmplice moral e instigador
por sugestão ininterrupta durante anos e de dois irmãos, teve
de refugiar-se em terra estranha, conseguindo assim subtrair-se a "vinte
anos de reclusão", que, por sentença, lhe foram impostos.
A população de Alegrete emitiu um suspiro de profundo alívio
e a paz voltou a serenar os lares... Alegrete assiste sempre cotidianamente
ao espetáculo constritante deste suicida moral, atarefado sempre
em criar novos desafetos, em forjar novos inimigos visíveis e ocultos;
em isolar-se do consórcio civil da gente cordata, benévola,
generosa, caritativa, indulgente, que tanto abunda em qualquer recanto desta
privilegiada terra brasileira. Livramento, Rivera, Quaraí, Artigas
tiveram que suportar resignados, por seis longos anos, esse cancro social.
Agravando a posição dos seus cúmplices, que eram seus
próprios irmãos, arranjou uma revisão do processo,
com relativa sentença precatória, (nesta terra abençoada
tudo é possível) e voltou ao paterno lar."
"O eco da suburra alegretense, o órgão predileto do alto
e baixo meretrício, a delícia do "souteneurs" cosmopolita,
o vademecum dos degenerados, o breviário dos modernos tartufos cínicos
e perversos. "A Palavra", dirigida pelo famigerado Júlio
Ruas... Um belo dia, sem o menor motivo, suas iras voltaram-se contra mim
com costumada e virulenta brutalidade. Fiel a certa tradição
de família, espécie de vício hereditário de
uma gente que tem singular pretensão de se fazer respeitar, recrutei,
ipso fato, um par de amigos e mandei-os em busca fera. Mas, vejam que milagre!
A fera não existia.
Em certa noite, terrível noite, em que a sociedade alegretense, reunida,
no Theatro Treze de Maio, assistia ao espetáculo, sendo assim testemunha
involuntária do drama, um infeliz funcionário caía
no átrio, assassinado covardemente, com dois tiros pelas costas.
Como médico municipal, revisei o cadáver e posso garantir
este último agravante detalhe, que ficou constatado no auto do corpo
de delito. A sanguinária coorte autora do crime, constituída
pelo redator de "A Palavra", cúmplice moral e instigador
por sugestão ininterrupta durante anos e de dois irmãos do
mesmo, teve tempo de refugiar-se em terra estranha, conseguindo assim subtrair-se
a "vinte anos de reclusão" que, por sentença, lhe
foram impostos... Livramento, Rivera, Quaraí Artigas tiveral que
suportar resignados, por seis longos anos, esse cancro social (Júlio
Ruas). Agravando a posição dos seus cúmplices, que
eram os seus próprios irmãos, arranjou uma revisão
do processo, com relativa sentença propiciatória (nesta terra
tudo é possível), e voltou ao lar paterno. Carta
de solidariedade de Feliciano Rodrigues
Sr.
Dr. Tito Marengo
Tendo
lido no pasquim "A Palavra", aqui publicado pelo tipo cínico
e bandido Júlio Ruas, ataques contra vossa respeitável personalidade,
apresso-me em dirigir-vos essas linhas para hipotecar-vos a minha inteira
solidariedade.
Os ataques, que vos foram dirigidos pelo célebre e covarde pasquineiro,
não vos atingem. Júlio Ruas é um covarde que bem
conhecemos; não tem palavra nem vergonha; pois se tivesse uma ou
outra coisa, não escreveria contra nós, depois de ter se
negado a dar explicações no campo de honra, assumindo compromissos
e, no entanto, nada tendo cumprido.
Onde está a palavra deste cínico?
Fazei
desta (carta) o uso que convier.
Vosso amigo, muito grato
Feliciano
Rodrigues
Alegrete, 17 de novembro de 1919.
02-Mai-1912
- Cinema - No Cinema Teatro Rio Branco foi assassinado o Sub-Intendente
da 1º distrito, o Capitão Joaquim Domingues Vieira,
pelo jornalista Manoel Julio Ruas, tornando-se o auxílio
da Polícia Judiciária, motivo pelo qual o Subchefe de Polícia
desta região destacou para aqui 07 praças da Brigada Militar.
Retirado esse auxílio que durou apenas 25 dias, tornou-se necessário,
para atender o policiamento como as circunstâncias exigiam, o aumento
da guarda. O efetivo passou a 62 praças.
30-Set-1915
- Igreja Matriz - Foi o Padre D. Cláudio José Gonçalves
Ponce de Leão quem deu licença ao Padre Constâncio
do Sagrado Coração de Jesus, para tomar conta da Paróquia
de Alegrete a 14 de maio de 1911.
A Igreja Matriz de Alegrete é uma obra prima da arquitetura moderna,
em estilo gótico, considerada uma das mais imponentes do Estado.
Os Superiores da Ordem dos Carmelitas enviaram de Santiago do Chile o
Irmão Cyrillo da Cruz que fez o projeto e deu início à
construção do templo a 30 de setembro de 1915.
As obras duraram 4 anos e, no dia 30 de março de 1919, procedeu-se
à solene inauguraÇão e bênção,
sendo Vigário o Padre Frei Segismundo de São Luiz Gonzaga.
04-Mar-1916
- João de Barros Cassal - Ao Rio grande do Sul, dentro de poucos
dias chegarão os restos mortais do herói João de Barros
Cassal (falecido em outubro de 1903). O Coronel Gomes de Castro levou os
restos de Mato Grosso ao Rio de Janeiro e daí para os Estado vizinho.
É digno que se reconhaça a grandeza moral de Gomes de Castro,
pois os restos são de seu adversário político, ficando
esse ato de afeto com o falecido, marcado para sempre.
Barros Cassal morreu em Mato Grosso, porque o feroz despotismo do Presidente
do Rio Grande do Sul o perseguiu impiedosamente, obrigando-o primeiro a
procurar liberdade em terras argentinas e, po derradeironuma parte do Brasil
afastada dos domínios dos seus covardes perseguidores.
Barros Cassal nasceu em Alegrete, a terra que se honra de ter sido o berço
de outro brasileiro notável, o impoluto estadista Dr. Demétrio
Nunes Ribeiro, cujas glórias em vão tentará ofuscar.
Como Demétrio Ribeiro, que foi o organizador do Partido Republicano
Rio-grandense, Barros Cassal ocupou posição saliente na propaganda
da República.
A sua coragem pessoal, a sua palavra veemente e o seu talento vigoroso colocaram-no,
acedêmico ainda, num plano muito superior, como evangelizador das
idéias republicanas, a certas figuras, algumas delas em demasia chatas,
que o fanatismo político dos detentores do poder no Rio Grande, considera
injustamente os propagandistas máximos do regime político,
inaugurado a 15 de Novembro de 1889.
Proclamada a República, Barros Cassal, para logo, se rebelou contra
o predomínio nefasto de Julio de Castilhos, de quem se transformou
no inimigo político mais destemeroso e mais pervicaz até o
seu falecimento.
Em 1900, após uma série de perseguições atrozes,
os seu adversários envolveram-no em um processo iníquo, em
resultado do qual o glorioso tribuno foi ter em Mato Grosso.
Ao chegarem ao Rio, os restos de Barros cassal, um homem que estava, na
ocasião, na quela cidade, certo empalideceu de emoção,
se o remorso sobre ele exerce alguma ionfluência, ao revés
do que sucede aos mai repulsivos criminosos. João Benício,
Depujtado Federal pelos Rio Grande do Sul, achava-se no Rio de Janeiro,
quando o Coronel Gomes de Castro ali aportou, com os restos mortais do inolvidável
republicano.
João Benício da Silva foi quem planejou o morticínio
na Sala do Tribunal do Júri de Alegrete, em 1900, quando Cassal defendia
um jornalista intemerato, acusado injustamente de caluniar Benício,
então Intendente de Alegrete, e foi quem obrigou um magistrado poltão,
seu parente, a subscrever uma sentença tão boçal, que
Ruy Barbosa afirmou que o seu autor era um juiz indigno de uma terra civilizada.
A sentença, sabe-se, que foi redigida em Porto Alegre, por ordem
de Julio de Castilhos, e remetida a João Benício que obrigou
o seu cunhado, Manoel Ferreira de Escober Junior, a copiá-la e firmá-la,
o mesmo magistrado que, depois de reconhecer que assassino de Nicanor Peña
se excedera na defesa e que, por essa razão, fora de parecer, fora
de parecer que o sumetessem a um novo julgamento em seguida ao grande julgamento
absolveu-o, baseado em que ele matara em legítima defesa.
Eduardo Mallmann, diretor do Jornal O Social, folha que se publicava em
Alegrete, em 1900, foi processado porter acusado o Intendente João
Benício de desviar desonestamente os dinheiros públicos. Barros
Cassal, convidado pelo jornalista, tomou-lhe a defesa. No dia do julgamento,
numerosa força policial, armada de carabinas, ocupou o recinto do
Tribunal.
Barros Cassal, que era de um bravura sem par, não se atemorizou com
a ostentação de força, embora soubesse que se premeditara
o seu assassinato. Quando se levantou na tribuna, calmamente, mas com a
energia que o caracterizava, iniciou a defesa de Eduardo Mallmann. Mal,
porém, pronunciara três ou quatro frases, o Delegado de Polícia
e Oficiais da Brigada Militar o apartearam e, vendo os seus apartes repelidos
pelos amigos de Barros Cassal, iniciaram a chacina planejada por João
Benício da Silva.
A Polícia matou os irmãos Delibrio de Barros e Dinarte de
Barros , amigos dedicados de Barros Cassal e, feriu gravemente o Sr. Jonathas
Rodrigues, unicamente por ter no pescoço um lenço vermelho,
símbolo das convições políticas maragatas. Tiros
dados a esmo alcançaram ainda diversas pessoas, uma das quais Hermínio
Lopes, faleceu das conseqüências do ferimento recebido. Barros
Cassal, milagrosament, salvou a vida. Por uma janela fugira aconselho dos
amigos, mas à noite, foi preso por uma escolta da Brigada Militar,
que não o matou por interveção do Sr. Alfredo Barros,
ex-Oficial daquela força.
Encerraram-no em um imundo cárcere, conjuntamente com um barril sem
tampa, atestado daquilo que que Cambronne receitou aos ingleses em Waterloo.
O Supremo Tribunal Federal permitiu-lhe, porém, abadonar o fétido
calabouço, coma concessão de um hábeas corpus que lhe
facilitou a fuga para a Argentina, antes que a Justiça do Rio Grande
do Sul o condenasse, como se esperava no processo que lhe movera como cabeça
do motim.
E houve um Juiz que o condenasse!
E o Superior Tribunal confirmou a sentença, embora reduzindo a pena!
A relíquia preciosa das suas cinzas serão encerradas em modesto
mausoléu a construir-se em breve. |